Mercado vai valorizar entorno

Corretores garantem ?vista perpétua? a compradores; no Pacaembu, imóvel ao redor de tombamento vale mais

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

01 de abril de 2009 | 00h00

"Vista perpétua" para os bairros tombados e a promessa de que nenhum espigão vai surgir do dia para a noite na sua janela. Nunca. O privilégio de morar em edifícios altos no entorno das áreas congeladas do Jardim América, Jardim Europa, Jardim da Saúde, Pacaembu e, agora, City Lapa, fazem valorizar os terrenos nas regiões limítrofes ao tombamento.No caso do Pacaembu, o metro quadrado das ruas fora da área de tombamento, nas margens da região residencial, chega a custar o dobro do valor da área tombada, segundo avaliação da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp). "Claro que depende de outros fatores também, como metrô, feiras perto de casa etc. Mas a garantia de uma vista sem barreiras é um atrativo muito valorizado no mercado", diz Paulo de Melo Menezes, diretor da Embraesp.Foi o que aconteceu no Jardim da Saúde, tombado em 2002 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp). Na Rua Marcos Fernandes, bem ao lado da região tombada, surgiu quase uma dezena de edifícios de alto padrão. Nos anúncios de lançamento, as empreendedoras chamavam os compradores para morar com "vistas para as áreas tombadas." "Quanto mais perto do bairro, mais valorizado", diz Heitor Marzagão Tommasini, da Associação dos Moradores do Jardim da Saúde.A acelerada verticalização do Ipiranga, bairro que tem boa parte da área com vista para o Jardim da Saúde, na avaliação de Tommasini, mostra como o mercado acaba aproveitando também o tombamento das regiões vizinhas. Outro atrativo que acaba chamando a atenção do mercado imobiliário é que os bairros residenciais se tornam grandes espaços de lazer. No caso do Pacaembu, uma das mais tradicionais zonas residenciais da cidade, o tombamento veio justamente para evitar a multiplicação de prédios que estavam criando uma imensa cortina que ameaçava a qualidade de vida dos moradores das casas da região. "As sombras dos prédios de Higienópolis já começavam a atrapalhar e o tombamento ajudou na solução do problema", explica Pedro Ernesto Py, presidente da Associação Viva Pacaembu por São Paulo.O tombamento ocorreu em 1991. Além de preservar o traçado original, criou escalas que limitavam a altura dos prédios conforme a distância das zonas tombadas. Nas quadras lindeiras, pode-se construir prédios de no máximo 10 metros. Nas quadras seguintes, 18 metros. "Isso ajudou a diminuir o apetite do mercado imobiliário no entorno do bairro", explica.Para Luiz Paulo Pompéia, diretor da Embraesp, não haverá grandes mudanças no valor dos terrenos da City Lapa ou mesmo movimentos bruscos no mercado em busca de lotes na região. "Desde que se iniciou o processo de tombamento, nos anos 1990, as regras estão bem definidas e são respeitadas porque órgãos de preservação do patrimônio as acompanham de perto. É uma situação relativamente estável e não há por que haver grandes mudanças na região", diz.Moradores de bairros tombados em São Paulo dizem que o tombamento não chega a alterar significativamente o valor dos terrenos. "O que o tombamento garante é qualidade de vida para uma população que gosta de morar em casa, que prefere evitar os problemas da vida em apartamentos", diz Py, do Pacaembu. "Só que com o tempo os moradores mudam um pouco o jeito de viver. Temos hoje pelo menos 90 reformas acontecendo nas casas do bairro. Em vez de quatro quartos e dois banheiros, como antigamente, as pessoas preferem três suítes, por exemplo."Tommasini concorda que sempre vai haver mercado para quem gosta de viver em casas e que os bairros residenciais não correm risco de desvalorização. Pelo contrário. "Só 30% da área de São Paulo está voltada para as residências (casas térreas), tipo de moradia preferida por muitos."

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