Mesa ao ar livre, área VIP do fumo

Oásis da nova lei, ambiente externo tem listas de espera; há bar que já restringe presença de não fumantes

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

15 Agosto 2009 | 00h00

No guardanapo do garçom Joaquim, do bar Filial, na Vila Madalena, constam cinco números, anotados no azul da esferográfica - 24, 5, 18, 3, 7. Cada um identifica uma mesa, cujos ocupantes aguardavam, na movimentada noite de sexta-feira, cerca de 40 minutos por um dos dez espaços na calçada do bar. Antes renegadas a espaço de espera, agora as mesas de fora são as mais disputadas da casa. Representam início de mudança na noite paulistana, dinâmica que leva os fumantes a eleger, em bares da capital que permitem o cigarro, seus novos assentos preferidos. "Antes, as pessoas esperavam fora para conseguir mesa dentro. Agora, é o contrário. Quem está aqui dentro é que quer ir lá fora", confirma o gerente do bar, José de Jesus Souza. No primeiro fim de semana após a lei antifumo e também nas noites de quinta e sexta-feira passadas, as mesas mais procuradas foram as da rua - a espera nessas noites variou entre 40 minutos e uma hora. Para ajudar fumantes a reencontrar seu espaço, o Estado elencou locais em que ainda é possível pitar em paz. Encontrou bares em que toldos recolhidos permitem que se fume à vontade, mesas no quintal com lista de espera e, também, assentos reservados única e exclusivamente para fumantes. É o caso do Bar PPP (Papo, Pinga e Petisco), na Praça Roosevelt, em que o proprietário, Edney Ardanuy, resolveu tentar "diminuir injustiças" - decidiu que, no seu bar, não-fumante simplesmente não pode sentar nas mesas da calçada. "Há espaço para 85 pessoas dentro da casa, e ali ninguém pode fumar. Nada mais justo que as cinco mesas de fora fiquem reservadas só para fumantes", explica Ardanuy, fumante convicto. Até uma blitz às avessas é realizada no bar. "Para sentar nas mesas de fora, o cliente tem de mostrar isqueiro e maço de cigarros." Até aqui, vem fazendo sucesso - além de angariar simpatias, ele viu a procura para as mesas só para fumantes chegar a 45 minutos. No Drake?s Bar, elegante pub de Pinheiros, localizado dentro do Consulado Britânico em São Paulo, a procura pelas mesas externas aumentou ainda mais - na sexta-feira, todas as reservas estavam preenchidas. "Colocamos sofás e novas mesas para atender à demanda", disse a maître do pub, Ivana Sousa. Para a estudante Carolina Mesquita, de 18 anos, a decisão entre os bares virá agora baseada na estrutura física do local. "Vi que o bar tinha uma área aberta e foi por aí que decidi", contou a estudante, de 18 anos, sentada à mesa no jardim. "Vai ter de ser assim." Reservas, aliás, passaram a ser nova preocupação para fumantes. "Agora, seguramos mesas para clientes fumantes que ligam, avisando que estão perto", diz João Cavalcante, gerente do Restaurante Trindade, na Rua Amauri, no Itaim-Bibi, zona sul. "São só cinco mesinhas para eles. Dá pena." Para não haver risco de multas, o bar e restaurante Killa, de temática peruana em Perdizes, instalou um toldo retrátil, que é recolhido à noite. Logo no primeiro fim de semana da nova lei, também registrou lista de espera inversa, das mesas de dentro para as de fora. "Nas noites frias, sem toldo, distribuímos mantas para ficar no colo de quem fica fora. Só tem de cuidar pra não derrubar o cigarro", brinca o gerente do bar, Georges Hutschinski. Restaurantes conhecidos por seus espaços externos também falam em aumento no movimento, mesmo em dias de semana. O Pé de Manga, na Vila Madalena, com espaçosas mesas em um quintal arborizado, viu a clientela subir de 50 para 80 pessoas por noite, na primeira semana da lei. A situação é semelhante no Pirajá, cujas mesas na área externa puxaram aumento no número de reservas. "Na terça, quarta e quinta, vimos as reservas aumentarem em 15%", disse o gerente da companhia que administra o bar, Vinícius Abramides. CLIENTELA Sentados numa mesa da calçada do bar Genésio - que, a exemplo do vizinho Filial também tem lista de espera para o espaço externo -, os engenheiros Eduardo Pimentel e German Ortiz estavam na segunda pizza. Toda a primeira fora consumida numa mesa dentro do bar, enquanto esperavam vagar lugar na calçada. "Esperamos uns 30 minutos, mas está esquisito isso. Tem bar que permite fumar na calçada, tem bar que nem isso, é uma confusão", reclamou Pimentel. "Acho que vai ter de ser sempre fora. Nem que seja para levantar, sair da mesa debaixo do toldo e pitar perto da sarjeta."

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