Reprodução/Facebook
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Mesmo ferida, professora correu para alertar colegas sobre ataque em creche de Santa Catarina

Keli Adriane Aniecevski, de 30 anos, foi atacada a golpes de facão e correu para tentar proteger as crianças. 'Verdadeira heroína. Conseguiu proteger várias crianças, mas perdeu a própria vida', diz uma prima da vítima

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2021 | 18h45

SÃO PAULO - Na manhã desta terça-feira, 4, a professora Keli Adriane Aniecevski, de 30 anos, se prontificou a atender um estranho que apareceu na creche Pró-Infância Aquarela, onde trabalhava em Saudades, cidadezinha no oeste de Santa Catarina. Lugar pacato, quem imaginaria uma tragédia dessas? Pega desprevenida, acabou atacada a golpes de facão e, mesmo com ferimentos graves, correu para alertar os demais sobre o agressor e tentar proteger os meninos e meninas, todos de seis meses a dois anos. 

Não houve tempo sequer para receber socorro médico: a professora foi a primeira a ter morte confirmada. O massacre soma cinco vítimas até o momento. “Ela foi uma verdadeira super-heroína. Conseguiu proteger várias crianças, mas perdeu a própria vida”, diz a prima Silvana Ester Helfer, de 29 anos.

As duas eram bem amigas desde a infância, quando a família de Keli se mudou de uma área afastada para um casa mais perto do centro de Saudades, município localizado na região de Chapecó-SC. Neta mais velha, a professora era solteira, tinha um irmão e ainda morava com os pais.

Na verdade, Keli era formada em Sistemas de Informação, mas se dava bem mesmo com criança. Podia passar horas brincando ou cuidando delas, segundo a família. Tanto que conseguiu um emprego fora da sua área e virou professora da creche há mais de cinco anos.

“Eu tive uma filha, recém-nascida, que só viveu 2h30 e Keli seria a madrinha dela. Mas a nossa família nunca viveu nenhuma tragédia parecida com a de hoje”, afirma Silvana, que é mãe de outro menino. “Ele adora a tia. Na semana passada, até me perguntou quando a gente iria para a casa dela brincar.”

No seu perfil no Facebook, Keli costumava compartilhar mensagens positivas e campanhas beneficentes. Entre as ações, publicou recentemente imagens de uma visita a um lar de idosos em Pinhalzinho, cidade vizinha. Também há posts de quando deixou o cabelo crescer para doá-lo. 

“Era uma pessoa muito alegre, espontânea e carismática. De uma luz interior incrível: passava tranquilidade para todo mundo e deixava todo lugar mais feliz”, descreve Silvana, que foi para a casa dos tios, ampará-los, após o ataque. “O município inteiro está em choque.”

Com população estimada de 9,8 mil habitantes, é comum que as pessoas sejam próximas em Saudades. No entanto, a família de Keli afirma nunca ter ouvido falar do criminoso - identificado pela Polícia Civil como Fabiano Kipper Mai, de 18 anos.

Silvana conta que acordou animada na manhã da tragédia. Pôs uma música e começou a tirar as roupas da máquina de lavar, quando o telefone tocou. Era a mãe:“Filha, está sentada? É melhor sentar”. “Levei um susto. A notícia chegou como uma bomba. Keli era uma pessoa tão boa que ninguém está acreditando ainda. Não há muito o que dizer. Já tentei deitar, puxar os olhos, dizer que é mentira. Queria muito que fosse mentira.”

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