Mesmo ocupada, cracolândia resiste

Vinte órgãos públicos e mais de 250 policiais não foram suficientes para acabar com a cena que se vê há 20 anos na região conhecida como cracolândia, no centro de São Paulo. Seis horas após o início de nova operação destinada a revitalizar uma das áreas mais degradadas da capital, centenas de viciados voltaram às ruas, com cachimbos em mãos e cobertas nas costas, em pontos tradicionais do consumo de crack.A operação "Ação Integrada Centro Legal" nem havia arrefecido, por volta das 16 horas, quando dependentes voltaram a se aglomerar nos arredores do Shopping da Luz e na esquina das Ruas Conselheiro Nébias e Vitória. A maior parte dos consumidores de crack negou o atendimento médico oferecido pelos 120 profissionais do Programa Saúde da Família (PSF), que se espalharam pelas ruas dos Campos Elísios e da Luz. Até no quarteirão onde foi montada a "central" dos agentes, no Largo Coração de Jesus, havia viciados fumando, no fim da tarde, bem próximos de guardas.Pela manhã, porém, com uma área superior a 600 mil metros quadrados cercada por PMs, os grupos de dependentes se espalharam. Viciados eram vistos sozinhos, tentando fugir da abordagem dos agentes de saúde e pedindo esmolas. Os policiais faziam revistas e não deixavam grupos parados. O perímetro tomado pelos policiais teve a presença de delegados, médicos, secretários e outras autoridades. A promessa é de que a operação dure seis meses e resulte numa "cadeia de revitalização".Entre 8h30 e 16 horas, houve prisões de traficantes transmitidas ao vivo pela TV, pensões fechadas, usuários encaminhados para ambulatórios médicos e botecos lacrados. Até um laboratório para o refino de cocaína foi descoberto no fundo falso de um cortiço. Ao todo, 21 imóveis foram lacrados e dezenas de famílias, despejadas. Nesses locais também foram localizados três foragidos da Justiça e dois traficantes, incluindo um homem que havia engolido 60 cápsulas de cocaína e viajaria à noite para Frankfurt (Alemanha). Um ambulante foi flagrado com 20 pedras escondidas num carrinho de picolés.Com a ação ostensiva, dependentes tentavam se esconder para fumar em cortiços das Alamedas Dino Bueno e Barão de Piracicaba e na praça na frente da Estação Júlio Prestes. Mas só após as 15 horas, com menos viaturas na região, os "noias" podiam ser vistos nos mesmos lugares de sempre, como na Alameda Glete e na Rua dos Timbiras. "O convencimento do usuário é um trabalho lento e permanente", disse o secretário de Saúde, Januário Montone.A operação ocorre no momento em que a Prefeitura promove a concessão urbanística da região para a iniciativa privada, em um negócio que pode render até R$ 2 bilhões aos cofres públicos nos próximos 15 anos. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) considera a revitalização da Luz e o fim da cracolândia a bandeira de sua segunda gestão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.