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Mesmo sem apoio oficial, reciclagem avança

As latas de lixo da casa de Simone Craveiro poderiam muito bem fazer as vezes de peças de decoração. Coloridas, pequenininhas, começaram a perder utilidade há uns 2 anos, quando a dona de casa, de 35, recebeu um folheto sobre reciclagem. Primeiro foram garrafas de refrigerante que deixaram de ir para as tais latas e passaram a ser doadas a uma cooperativa. Depois as embalagens de iogurte, as de pasta de dente, caixas de leite, papelão, potes de vidro... Até que a imensa maioria do que antes era chamado de lixo na casa teve o mesmo destino. Nem o óleo de cozinha já usado escapou. "Ensinei minhas três filhas que quase tudo que era jogado fora poderia ser lavado e mandado para reciclagem", diz Simone, que começou a tocar campainha por campainha em sua rua na Vila Sônia, zona sul de São Paulo, até que os vizinhos aderissem à coleta seletiva. "Não faço por dinheiro nem é papo de ?ongueira?. Se não fizermos nossa parte, ficaremos soterrados de lixo."Pode parecer que Simone faz um papel de formiguinha, insignificante perto do que a cidade produz de lixo. Mas, de formiguinha em formiguinha, é um trabalho que pode de fato salvar o formigueiro.De latinha em latinha, um papel jogado aqui e uma garrafa de refrigerante lá, cada paulistano gera por dia cerca de 1,2 quilo de lixo. Só em 2006, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Urbana (Abrelpe), a cidade jogou fora 3,3 milhões de toneladas de lixo domiciliar, 10% do total do País. Incluindo outros tipos de detritos, como industrial e entulho, são 5,8 milhões de t por ano - ou 16 mil t por dia, o suficiente para encher o Estádio do Pacaembu até o topo das arquibancadas.O Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb) informa que só 1% desse lixo é reciclado por uma rede "oficial" de 70 cooperativas cadastradas. A média nacional é 5%, calcula a entidade Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre).Os números preocupam. Até porque pesquisadores como Elizabeth Grimberg, do Instituto Pólis e do Fórum Lixo e Cidadania, consideram que a Prefeitura parou no tempo em termos de reciclagem. Mas há o que comemorar. O Pólis calcula que, graças a pessoas como Simone, empresas, ONGs, 45 mil catadores e mais de 150 cooperativas, cerca de 20% do lixo já é reciclado - índice de mundo civilizado. Estima-se que a capital tenha hoje 4 mil postos de entrega voluntária de lixo reciclável, em escolas, condomínios e parques. Só nos supermercados Pão de Açúcar, por exemplo, a entrega de lixo reciclável mais que dobrou de janeiro a outubro.Esse exército tem garantido uma economia anual para a cidade de US$ 300 milhões - mas daria para economizar até US$ 1,2 bilhão, pelos cálculos do economista Sabetai Calderoni, autor do livro Os Bilhões Perdidos no Lixo. "Falta política pública, mas pequenas atitudes estão mudando o cenário", diz Elizabeth.

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

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