Mestre-de-obras do Metrô toma ovada no centro de São Paulo

Toninho poderia ser o apelido de um dos tantos operários da construção da Linha 4-Amarela do Metrô de São Paulo. Quem sabe até ser confundido com um dos guardas, ou ainda com os responsáveis pelo almoço no refeitório, que fica sob as árvores centenárias do Centro da metrópole. Antônio Pedro Monteiro Filho, de 51 anos, entretanto, é o mestre-de-obras da estação República e responsável por coordenar a equipe de mais de 100 operários da manhã à noite. O apelido, porém, aproxima a hierarquia e o olhar atento e destemido guia os funcionários como se fosse aquele de pai para filho, apesar da diferença abissal entre o salário de um e outro.A habilidade da liderança chegou aos poucos. Ele ainda era "juvenil" quando começou a entender o mecanismo de uma pequena obra, em Mirandópolis, interior de São Paulo, cidade onde nasceu. Em seguida, foi promovido a operador de guindaste e nos últimos 15 anos seleciona a melhor função para todos os funcionários com quem trabalha. Essa não é a primeira vez que Toninho encara os subterrâneos paulistanos.Ajudou a escavar os túneis das estações Itaquera e Ana Rosa do Metrô, mas não participou da conclusão da obra. As lendas que estimulam a imaginação de muitos operários é novidade para ele. Diz que nunca viu fantasmas, muito menos cadáveres ou fósseis arqueológicos. "Só terra e pedaços de concreto. Ouro que é bom, nada", diverte-se.Em 2004, Toninho estava trabalhando nas obras da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) quando foi chamado para integrar a equipe do Consórcio Via Amarela. Funcionário da Andrade Gutierrez, uma das seis empresas, começou pelo Pátio Vila Sônia, onde ficou durante um ano e três meses. Em setembro de 2005, deu início ao canteiro de obras na República e de lá para cá, só acumula bons resultados, elogios e a sorte de um único e pequeno acidente, que ocorreu com um empregado terceirizado.Uma das poucas surpresas na obra da República ocorreu no dia 5 de maio de 2005. A equipe precisava entregar uma parte da obra e foram contratados dezenas de homens extras. Era sabido que as britadeiras incomodariam o sono dos vizinhos mais próximos, já acostumados ao movimento inoportuno das máquinas. A diferença, dessa vez, foi na intensidade do barulho.Talvez só mesmo o cantor Supla, morador do prédio em frente à praça, não se incomodaria. Ou quem sabe algum outro vizinho chegasse à porta do canteiro para lembrar os operários de que era domingo e todos só pediam o direito de descansar. Naquela fatídica manhã, a surpresa veio do alto de uma sacada. "Ela estava de camisola mesmo, e não teve dó nem piedade. Jogou uma meia dúzia de ovos, mais umas laranjas no meio da obra, voltou correndo pro quarto e fechou a janela. Por pouco não pegou na minha cabeça", relata Toninho, envergonhado.Instantes depois, ele retoma o ar de velho líder e se justifica: "Para fazer uma obra em São Paulo, em plena Praça da República, tem que estar muito bem preparado e orientado. Aqui se vê de tudo". E não é pouca coisa, não. Na região, o comércio ambulante compete com as lojas que ainda restaram. Da grade que separa a obra da via pública, Toninho contabiliza as diversas vezes que assistiu à ação dos "rapas", policiais que fazem blitz nas ruas de maior movimento à caça de camelôs ilegais. Para o mestre-de-obras, a atitude da polícia ao recolher o material "chega a dar dó". "Sei que tem muito bandido infiltrado, mas se essas pessoas estão ali é porque não tem emprego. Poderiam pelo menos pedir os documentos e ver quem é bandido e quem é gente de bem. E tem a questão dos comerciantes também. É uma situação horrível e a gente é tão pequenininho para analisar tudo isso".Além dos perigos do dia-a-dia das ruas do Centro, às vezes o inesperado acaba entrando na obra da República sem pedir licença. Foi num dia de folga do mestre-de-obras que um pára-quedista desabou no meio do canteiro. Ele saltou do alto do Edifício Itália, situado bem em frente à estação, sem um vento sequer. Toninho só ficou sabendo pelo relato do guarda que estava de plantão: "Era um rapaz de uns 28 anos, que pretendia fazer um salto muito mais audacioso. Acabou caindo no pátio, por sorte longe da fiação elétrica. De cara, o guarda pensou que ele tinha se machucado, mas logo se levantou e ficou quieto. A polícia da base aqui do lado veio ver o que tinha acontecido. Ele só pediu desculpas e disse que era da aeronáutica. Na grade, juntou um monte de curiosos".Nos dias normais de trabalho, sem alvoroços ou visitas indesejadas, o almoço no refeitório sai lá pelas 11 horas. Depois os operários ficam na "área de lazer", cuidadosamente construída para não interferir na obra. São nesses trinta minutos de descanso que aproveitam para jogar baralho, ler o jornal do Metrô, revistas. No pátio, a equipe inteira também se mobiliza para juntar o lixo da própria obra e do refeitório, separando ecologicamente o orgânico do reciclável. Quando enchem as latas, Toninho organiza a venda de todo o material e compra cestas básicas para sortear entre os operários. "É uma forma de manter a área limpa e passar um pouco da preocupação com o meio ambiente para todo mundo aqui", explica ele.

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