Metade das vagas de albergues será desocupada, diz Alda

Prefeita em exercício afirma que 3.280 pessoas não precisam ficar em abrigos públicos

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

20 de maio de 2009 | 00h00

Ao anunciar ontem a criação de um hotel para idosos carentes na Nova Luz, a prefeita em exercício, Alda Marco Antonio, afirmou que metade das 8 mil vagas nos 40 albergues de São Paulo será desocupada. Com exceção das 720 pessoas com mais de 65 anos que serão realocadas em prédios municipais com assistência médica, outros 3.280 albergados já poderiam estar nas ruas, segundo Alda, que acumula os cargos de vice-prefeita e secretária da Assistência Social.A prefeita disse ao Estado que as vagas desocupadas serão preenchidas "pela população de rua que realmente precisa" e de forma transitória. "Tem muita gente que ganha R$ 1 mil e continua morando nos albergues por comodismo. Ficam três, quatro anos", criticou Alda, sem definir prazo para concluir as remoções. Uma "equipe multidisciplinar" faz o levantamento de quem pode sair dos albergues. A prefeita diz já ter retirado "cem inquilinos" do Albergue Boraceia, na Barra Funda. "Ganhei meio albergue novo só com a saída de quem não precisava mais."Há pouco mais de cinco meses como secretária, Alda contou também ter desclassificado 40 das cerca de 400 entidades que mantinham contratos com o governo. Dos R$ 615,78 milhões previstos neste ano no orçamento da Assistência Social, cerca de R$ 326,18 milhões serão usados na terceirização de unidades como os albergues e os centros de referência. "Para quem administra os albergues, esse cara que ganha R$ 1 mil não dá trabalho, é um bom hóspede. Difícil é cuidar de quem está em situação de pobreza extrema. Descobrimos entidades que não atendiam às nossas metas de serviços", acrescentou.Alda também disse que mais um albergue do centro será fechado em outubro, o Pedroso, com 250 vagas. Antes, cerca de mil vagas no centro já haviam sido extintas com o fim de dois albergues no Glicério e na Bela Vista. "Albergue em viaduto, sem condições sanitárias, não pode funcionar. E não estamos fechando as vagas, existe um remanejamento. E teremos uma central de atendimento no Parque D.Pedro II."As técnicas da Assistência Social que acompanhavam a prefeita informaram que a remoção dos albergues terá três frentes: a inclusão de moradores de rua em programas sociais dos governos federal e estadual, como meio de permitir a sua reinclusão na sociedade; a localização de familiares e a oferta de passagens para o retorno à cidade de origem; e a transferência dos idosos para hotéis, como o inaugurado ontem no centro, em um antigo edifício da Prefeitura reformado que receberá 100 pessoas até o dia 31.Apesar de a prefeita garantir que não serão fechadas vagas na região central, neste ano o governo municipal terá um número maior de novas vagas em albergues da zona sul (656) do que no centro (575). Ao todo, serão 1,5 mil novos leitos para a Operação Baixas Temperaturas, ante as mil disponibilizadas em 2008. Entidades que atendem a população de rua do centro temem que as vagas desocupadas pela secretária sejam extintas. Organizações não-governamentais (ONGs) acusam a gestão da vice-prefeita na Assistência Social de ser "higienista" em relação à região central. "Está claro que a política é forçar a ida dos moradores de rua para a periferia. Temos pessoas que fazem bicos e ganham R$ 400 por mês nos albergues, isso é comum, mas o aluguel de qualquer quartinho em São Paulo custa R$ 200", criticou Alderon Pereira da Costa, da Rede Rua.Anderson Lopes Miranda, coordenador do Movimento Nacional de Assistência à População de Rua, acusou a secretária de fazer uma "faxina" no centro. "Alda está equivocada, ela não tem pesquisa ou embasamento para dizer que metade da população dos albergues deveria ser removida." A reportagem também ouviu o Instituto Beleza e Cidadania, ONG que mantinha até março convênio para administrar o Centro de Referência do Mandaqui, na zona norte. "Optamos por terminar o convênio porque não era satisfatório para nós. É complicado trabalhar com políticas públicas de gestão", disse Lara Dee, coordenadora da entidade.

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