''''Meu corpo padeceu para o resto da vida''''

L. afirma em depoimento que fez sexo com presos porque policiais não lhe davam comida

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Nos dois dias de depoimentos que deu às autoridades estaduais do Pará, L., de 15 anos, repetiu as mesmas respostas a promotores, juízes, conselheiros tutelares e advogados que a entrevistaram. A adolescente contou que, durante os 24 dias em que ficou detida num cela com homens, não recebeu comida dos policiais na delegacia de Abaetetuba. Como a família não sabia que estava presa, não poderia levar alimentos para ela. Assim, a única alternativa que encontrou para conseguir comer foi manter relações sexuais com outros presos.L. está com marcas de queimaduras de cigarro no corpo e, anteontem, reclamou para as autoridades que estava sentindo muito enjôo. "Será que estou grávida?", perguntou a uma das pessoas que a acompanhavam. Ela se queixou por ter dormido no chão de cimento da cela da delegacia. Quando estava em umas das redes descansando e outro preso chegava, era obrigada a ceder seu lugar.L. contou que foram, na verdade, os policiais, e não os presos, como chegou a ser divulgado, que cortaram seu cabelo - deixando-o curto para reduzir o risco de que ela fosse descoberta na delegacia. Apenas dois detentos, segundo a adolescente, a defenderam. Um deles tinha o apelido de Vai-Vai.Durante o depoimento, L. disse uma frase que deixou chocada uma das pessoas que estavam com ela. "Quando a cabeça não pensa, o corpo padece. Meu corpo já padeceu para o resto da minha vida", desabafou. Ela disse que antes gostava de se arrumar e sair para festas, mesmo quando era proibida pelos pais. "Nunca mais vou ter vontade de fazer isso."Na tarde de anteontem, L. recebeu a visita da mãe, que levou os bombons de chocolate que ela havia pedido. Dividiu a caixa com outras crianças abrigadas na instituição onde ela estava sob proteção. Passou batom nos lábios e colocou uma tiara na cabeça para ganhar aparência mais feminina.Na madrugada de ontem, a menina foi transferida para outro Estado. O pai biológico dela, Aloísio Prestes, também viajou em companhia da filha. Ambos estão sob proteção de agentes da Polícia Federal. A secretária adjunta da Subsecretaria dos Direitos da Criança e do Adolescente, Márcia Ustra Soares, que acompanhou a dupla na viagem, disse que o destino da garota não seria revelado, por questão de segurança. "Tanto o pai quanto a menina sofreram ameaças e não convém divulgar o local para onde foram transferidos", explicou.A mãe da garota e os irmãos de L. ficarão sob guarda do governo estadual, por determinação da governadora Ana Júlia Carepa (PT). Além de zelar pela segurança de parte da família da menina, o governo dará assistência nas áreas de saúde, educação e esporte. "Essas pessoas estão muito traumatizadas com tudo o que aconteceu e receberão todo cuidado que pudermos oferecer", disse a governadora em entrevista ao Estado. Ana Júlia informou que, na terça-feira, terá uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para expor a ele a situação da segurança pública no Pará. A governadora também vai pedir recursos para investir na construção de alas para abrigar mulheres nas delegacias do interior do Estado.

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