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Meu lado, minha lógica

É mais difícil ser lógico quando entra em pauta tema que mobiliza nossa opinião

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S. Paulo

04 Novembro 2018 | 04h00

“Aos 16 anos, matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? –, logrei ser absolvido por 5 votos a 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.” Assim começa o romance A Lua Vem da Ásia, do singular escritor brasileiro Campos de Carvalho. Sendo talvez um dos poucos escritores verdadeiramente surrealistas da nossa literatura, nada mais legítimo de fato do que tentar se defender das amarras da lógica. 

No entanto não são apenas os surrealistas que têm problemas com essa disciplina. As tentativas de estabelecer normas para o pensamento rigoroso remontam à antiguidade grega, particularmente a Aristóteles. Mas quem quer saber de ser rigoroso, afinal? Aderir às regras lógicas de alguma forma nos tolhe a liberdade. A liberdade de falar bobagem, antes de tudo. Mas dela não queremos abrir mão. 

Tomemos o caso dos silogismos. São aquelas construções com duas premissas que levam necessariamente a uma conclusão. Como no famoso exemplo: “Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”. A conclusão sobre a mortalidade de Sócrates é inevitável. 

A lógica ensina que os silogismos não são avaliados quanto a se são verdadeiros ou falsos, mas se são válidos ou inválidos. Outro exemplo clássico que ilustra esse aspecto: “Todos os queijos são comestíveis. A Lua é feita de queijo. Logo, a Lua é comestível”. Trata-se de um argumento válido, já que a conclusão deriva necessariamente das premissas. A conclusão é falsa porque uma das premissas é falsa. Mas isso não interfere com a lógica.

Quando os silogismos falam de casos particulares, fica mais difícil avaliar sua validade. “Todo paulista é brasileiro. Alguns brasileiros são flamenguistas. Alguns paulistas são flamenguistas.” Embora a conclusão ateste uma verdade, o argumento não é válido. 

Julgar se um argumento tem lógica, portanto, não depende de seu conteúdo estar certo. E obviamente não faz diferença se concordamos ou não com a conclusão. 

Mas o fato é que, quando entram em pauta temas que mobilizam nossas opiniões, torna-se mais difícil ser lógico. Nosso cérebro automaticamente leva em conta de que lado da disputa está o argumento em sua avaliação. 

Há poucos meses, pesquisadores da Eslováquia publicaram um estudo no qual pediam para voluntários avaliarem alguns silogismos. Parte deles era neutra, mas outra parte versava sobre o direito ao aborto, alguns favoráveis e outros contrários. Além disso, havia silogismos válidos e inválidos. 

Aqui vão alguns exemplos – veja se consegue avaliá-los de forma isenta. 

“Todos os fetos devem ser protegidos. Alguns fetos são seres humanos. Alguns seres humanos devem ser protegidos.”

“Todos os direitos das mulheres devem ser apoiados. Alguns dos direitos das mulheres são abortos. Alguns abortos devem ser apoiados.”

“Todos os fetos são seres humanos. Alguns seres humanos devem ser protegidos. Alguns dos que devem ser protegidos são fetos.”

“Todos os abortos são direitos das mulheres. Alguns dos direitos das mulheres devem ser apoiados. Algumas das coisas que devem ser apoiadas são os abortos.”

Obviamente o primeiro e o terceiro são contrários ao direito de abortar, o segundo e o quarto favoráveis. Mas quais argumentos são lógicos? Se você disse que apenas os dois primeiros são válidos, independente de concordar com eles, parabéns. 

Convicções. Não é o que acontece muitas vezes. Independente de a pessoa ter treinamento em lógica e saber julgar silogismos adequadamente, quando as convicções entram em cena parece que a razão pura fraqueja. 

Os cientistas notaram que os voluntários tinham maior tendência a julgar como inválidos argumentos que eram sólidos, mas contrariavam suas opiniões. Não só isso, eles também cravavam como válidos argumentos ilógicos cujas conclusões apoiavam. 

Dá para entender por que os argumentos de alguns parentes simplesmente parecem não ter lógica naqueles debates em família. Se estamos em lados opostos, os nossos argumentos também não têm sentido para eles.

* É PSIQUIATRA

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