Mídia, segurança pública e violência

Será a imprensa corresponsável por ações de desordem que visam a sensibilizar a opinião pública? As recentes ondas de protestos deflagradas neste ano nas favelas de Heliópolis, Tremembé e Paraisópolis, em São Paulo, chamam a atenção para o papel da mídia na segurança pública.

RENATO SÉRGIO DE LIMA, SOCIÓLOGO, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

Com características similares, as três manifestações tiveram início como uma espécie de reação da população à forma violenta como a polícia atua nessas áreas. Porém, segundo a PM de São Paulo, os episódios foram realizados no mesmo horário, no fim do dia, de forma violenta, com ateamento de fogo em ônibus e formação de barricadas com pneus incendiados, e enfrentamento de civis à polícia.

A polícia afirma que esses atos foram planejados, com a distribuição de panfletos apócrifos incitando os moradores de Heliópolis a realizar protesto no horário combinado, porque despertariam "maior interesse" da mídia televisiva, inflamado ainda mais as pessoas da comunidade local.

Ainda de acordo com a PM, o modus operandi também guardaria similaridade com outros dois momentos: a desocupação, neste ano, da Favela Tiquatira, que também teve formação de barricadas incendiárias; e os ataques do PCC, que foram minuciosamente calculados para gerar pânico e medo na sociedade.

Por trás das semelhanças estaria, portanto, a ideia de que tais protestos não seriam espontâneos. Seriam objeto da atuação política de um ou de mais segmentos da sociedade. Seriam ilegítimos e estariam fazendo uso da mídia para justificar atos violentos.

Diferentes segmentos da sociedade civil denunciam, porém, a permanência de práticas violentas por parte da polícia nas comunidades de periferia. Para esses segmentos, a violência policial continuaria sendo uma constante em suas vidas e, ao dar destaque para tal situação, o uso da mídia seria uma das únicas formas legítimas ao alcance da população para combatê-la.

Seja como for, devemos reconhecer que a mídia impressa e eletrônica é, na atualidade, um dos mecanismos essenciais na circulação de informações e de influência nas decisões governamentais. Ao se apropriarem de sua lógica de trabalho, tanto o Estado quanto segmentos da sociedade procuram maximizar suas mensagens e reivindicações, numa disputa da opinião pública pautada pelo pragmatismo.

Num cenário onde a violência é uma das maiores aliadas na produção da notícia, pois dramatiza o cotidiano e o torna em destaque, a existência de posições como essas será inevitável. A produção da notícia determinará em muito os rumos e os tempos políticos. Mais do que concordar com um dos lados dessa disputa, cabe ressaltar a enorme responsabilidade da mídia, sem desmerecer as dos demais atores, na construção de um espaço público capaz de garantir direitos e cidadania, no qual polícia e sociedade deixam de ser inimigos e passam a ser parceiras na defesa da paz.

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