Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Milícias disputam áreas na comunidade Sol Nascente

Na favela, entra para o crime das terras até mesmo quem deveria proteger a população

André Borges e Luísa Martins, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 03h00

No dia 30 de abril de 2015, Maria de Jesus Santos, de 38 anos, estava sentada na porta de sua casa com a filha de três anos, quando um homem aproximou-se, sacou a arma e baleou mãe e criança. Maria morreu na hora. Três tiros na cabeça. A criança, atingida no peito, chegou a ser socorrida, mas não resistiu. 

A barbárie que chocou a vizinhança era parte de um plano já traçado meses antes: acabar com a família para tomar seus lotes em uma das regiões mais valorizadas do Sol Nascente. O marido de Maria, dono de muitos terrenos, havia sido assassinado no começo de 2015, a mando de Sérgio Rolim, um grileiro conhecido como "Sérgio da Hilux", considerado pela polícia um "bandido-ostentação", por circular pelas vielas da favela em uma picape de luxo. Nos planos de Rolim, faltava matar mãe e filha. 

Sérgio da Hilux conhecia bem a família que mandou executar. Havia, inclusive, sido convidado por Maria para o aniversário de 4 anos da menina. 

Os assassinos foram presos logo depois do crime. Sérgio da Hilux ainda conseguiu fugir, mas acabou detido dois meses depois, na praia de Morro Branco, a 90 quilômetros de Fortaleza (CE). Atualmente, cumpre prisão preventiva na Papuda, enquanto aguarda julgamento pelos crimes de grilagem de terra e homicídio qualificado. 

As gangues que aterrorizam os moradores da favela não se inibem em pichar nos muros o artigo 121 do código penal, que trata de homicídios. A citação costuma acompanhar a sigla do Comando do Sol Nascente (CSN), uma facção que, para a polícia, é o embrião de um Comando Vermelho na região. O "Comando Favela" é outro que também deixa seus recados nas paredes das casas.

O líder do CSN, conhecido como "Fernandão", faz hoje companhia a Sérgio da Hilux nas celas da Papuda, depois de ser capturado pela operação "O Comando é Nosso", da Polícia Civil. Seus filhos, Moisés e Tiago, também foram presos e indiciados por associação criminosa, homicídio, tráfico de drogas e extorsão. São prisões preventivas, sem data para julgamento.

No Sol Nascente, entra para o crime das terras até mesmo quem deveria proteger a população. No dia 4 de março, a auxiliar de serviços gerais Gláucia Sotero da Silva, 42 anos, fez um boletim de ocorrência contra o policial militar Amarildo da Cruz Alves, por tentar tomar sua casa sob ameaças de morte. No documento, "também falou que Amarildo iria colocar drogas em sua casa para que fosse presa".

Mãe de três filhos e moradora do Sol Nascente há seis anos, Gláucia contou que o policial chegou a aparecer em sua casa fardado e que já havia expulsado outros moradores do mesmo lugar. Na Justiça, ela conseguiu uma medida protetiva, que obriga Amarildo a não se aproximar de sua família. 

Em novembro, ao chegar em casa depois do trabalho, Gláucia encontrou portas e janelas arrombadas. "Roubaram tudo, quebraram as coisas. Eu vou embora daqui. Aqui não dá pra ficar mais não", diz.

As acusações contra Amarildo se espalham por outros cantos da favela. A moradora Rosângela Felícia de Oliveira, 33 anos, também relata episódios de ameaças feitas pelo policial. Ela, que já foi intimada a abandonar sua casa, hoje está desempregada e depende de bicos para viver e sustentar a filha de 15 anos. 

Amarildo chegou a ser preso por conta das acusações. Em abril, apresentou um pedido de revogação de prisão preventiva decretada pela prática dos delitos como esbulho possessório, parcelamento irregular de solo, receptação e ameaça. A juíza Edioni da Costa Lima, da 1ª Vara Criminal do Ceilândia rejeitou o pleito, sob argumento de que "a manutenção da prisão do requerente se faz necessária para garantir a ordem pública, já que a sua soltura implica pôr em risco a integridade física das pessoas por ele ameaça à mão armada". Amarildo não foi encontrado pela reportagem para comentar o assunto. A Polícia Militar não se manifestou sobre as acusações contra o agente. 

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública e Paz Social do DF informou que, na Delegacia do Meio Ambiente (Dema) da Polícia Civil existem, atualmente, 68 inquéritos em tramitação para apurar crimes de parcelamento irregular do solo e dano ambiental na região do Sol Nascente. "No primeiro semestre foi realizada uma grande operação em conjunto com a Subchefia da Ordem Pública e Social (SOPS), oportunidade em que foram presos 43 indivíduos pelo crime de parcelamento irregular do solo para fins urbanos", declarou.

Apesar de todas as dificuldades, a moradora Rosângela Felícia de Oliveira diz que não vai deixar a favela. "Tenho um sonho de ter um lugar melhor para minha filha, mas por enquanto meu canto é aqui. Não vou sair", diz ela. Na luta por um trabalho, ela já conseguiu "bicos" para cuidar da recepção do Ministério do Turismo, na Esplanada, onde pouco se sabe sobre o Sol Nascente. 

 

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