Milícias respondem por quase metade dos homicídios no Rio

45% dos assassinatos foram cometidos pelos paramilitares; expansão de seu território faz violência aumentar

Pedro Dantas, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2011 | 08h59

As milícias são as maiores responsáveis pelos assassinatos no Rio, com 45% da autoria dos mais de mil casos registrados na Divisão de Homicídios (DH) da capital fluminense desde a fundação da delegacia especializada, em janeiro de 2010. As autorias dos demais casos estão fragmentadas entre homicídios praticados por traficantes, assassinatos ocasionais, como brigas de rua, e crimes passionais.

Segundo especialistas em segurança pública, os milicianos estão expandindo-se em direção às favelas da favelas zona norte. Eles apontam que o volume de dinheiro dos múltiplos negócios motivam as disputas a tiros entre os paramilitares.

"Não me surpreende que a milícia mate mais hoje no Rio. A prática mais utilizada pelo miliciano é o homicídio", disse o delegado titular da Delegacia de Repressão às Atividades Criminosas Organizadas (Draco), Alexandre Capote, responsável por investigar os paramilitares. "Eles são violentos com as testemunhas dos crimes cometidos por eles ou com quem enfrenta as práticas estabelecidas pelos grupos."

O combate às milícias no Rio foi incrementado em 2008, quando foi instalada a CPI das Milícias. Em maio daquele ano, uma equipe do jornal O Dia foi torturada por paramilitares da Favela do Batan, em Realengo (zona oeste), que hoje é ocupada por uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Com a repercussão do caso, o número de prisões de milicianos aumentou em comparação aos anos anteriores. Em 2006, foram presos cinco; em 2007, 21. Em 2008, o número subiu para 78. No ano seguinte, várias operações foram realizadas e 275 milicianos foram parar atrás das grades, entre eles policiais, bombeiros e até parlamentares. Em 2010, pelo menos 193 milicianos foram presos em todo o Estado.

Geografia. Os homicídios das milícias se concentram nas zonas oeste e norte do Rio. Na primeira região, os bairros de Santa Cruz e Campo Grande apresentam o maior número de mortes, tanto em disputas internas entre os paramilitares quanto em assassinatos de desafetos, como os remanescentes do tráfico ou moradores e comerciantes insatisfeitos com as taxas cobradas por segurança, gás e "gatonet" (sinal pirata de TV a cabo).

Na zona norte, os confrontos em disputas com traficantes aumentam as mortes provocadas pelos milicianos, que conquistam cada vez mais favelas antes dominadas pelo tráfico.

TRÊS PERGUNTAS PARA ...

Alba Zaluar, antropóloga e especialista em segurança pública

1.Como as milícias evoluíram?

Até os anos 1970, elas tinham o nome de "polícia mineira" e eram até apoiadas pela população para fazer segurança paga. Hoje elas têm múltiplos negócios, como venda de sinal ilegal de TV a cabo, taxas por cooperativas de transporte, além de invasões de imóveis.

2. Como a senhora recebe essa informação de que a milícia é a que mais mata?

Com surpresa. Mas sabemos que a milícia vem mudando. Em pesquisas de vitimização anteriores, moradores apontavam que as áreas dominadas por milicianos eram mais tranquilas e nelas quase não se ouvia tiros.

3. O que mudou?

A milícia hoje tem um projeto político, elege candidatos e financia campanhas. Para isso, eles precisam de cada vez mais dinheiro e diversificaram os negócios. O volume de dinheiro aumentou a violência nas disputas por território e entre os próprios milicianos. Eles já chegaram até nas Áreas Integradas de Segurança Pública 3 (na zona norte) e em lugares onde nunca tinham atuado, como a Ilha do Governador.

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