Milícias são suspeitas de assassinar delegado em mercado do RJ

Alcides de Jesus, de 66 anos, foi morto com um tiro na nuca quando tomava café da manhã em lanchonete

Pedro Dantas, de O Estado de S. Paulo,

18 de maio de 2008 | 15h50

Homens ligados às milícias (grupos paramilitares que cobram por segurança em favelas do Rio) são os principais suspeitos da execução do delegado-titular da 20ª Delegacia de Polícia do Grajaú (Zona Norte), Alcides Iantorno de Jesus, de 66 anos. Ele foi morto com um tiro na nuca na manhã deste domingo quando tomava café da manhã na lanchonete de um supermercado no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio.  De acordo com testemunhas, dois homens seguiram o delegado em um carro e um deles, com boné e óculos escuros, saltou, abordou o policial e o executou com um tiro na nuca. O assassino saiu do local atirando para o alto antes de entrar no carro, que saiu em alta velocidade.  O delegado comandou diversas delegacias distritais e especializadas. Ele investigou a atuação das milícias na Favela Kelson's, na Penha (Zona Norte) e o seqüestro e assassinato do líder comunitário Jorge Silva Siqueira Neto no ano passado. O chefe da Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, descartou a hipótese de roubo e disse que a hipótese de o crime ter sido cometido por milicianos é a linha de investigação mais forte até o momento. Casado e pai de dois filhos, Iantorno, como era conhecido, tinha mais de 30 anos de polícia e também participou de outros casos importantes como o cerco e a prisão ao traficante Elias Maluco em 2002. Atualmente, ele estava lotado na Delegacia do Grajaú que assumiu após comandar a 22ª Delegacia da Penha, quando investigou a atuação das milícias na região e os confrontos entre policiais e traficantes no Complexo do Alemão (Zona Norte). A loja em que o policial foi morto ficava a poucos metros de sua residência no Recreio dos Bandeirantes. As favelas do bairro também são dominadas por milicianos. Após o crime o local foi cercado por delegados, parentes e policiais em busca de informações. Os familiares disseram que o delegado não tinha inimigos pessoais.  "Ele era um homem pacífico e sequer andava armado. Não acredito na hipótese de roubo", disse a delegada Valéria da Costa, que já foi adjunta de Iantorno e atualmente está lotada na 61ª Delegacia de Xerém, na Baixada Fluminense.O crime será investigado pela Delegacia de Homicídios. Os investigadores chegaram a anunciar que identificariam os assassinos pelas imagens das câmeras do circuito interno do supermercado, mas isto não foi possível devido à baixa qualidade das imagens. Kelson's De acordo com a denúncia do líder comunitário assassinado, a milícia ocupou a Favela Kelson's em novembro de 2006. Em fevereiro do ano seguinte, nove pessoas, sendo três moradores, cinco traficantes, um policial militar apontado como chefe da milícia morreram em uma investida frustrada dos traficantes para retomar a comunidade. Na ocasião, as investigações de Iantorno apontaram que além da disputa com os traficantes existiria também uma disputa interna entre os milicianos.  Em agosto daquele ano, quatro policiais do 16º Batalhão de Polícia Militar de Olaria foram presos sob a acusação de chefiar a milícia local. Dois dias depois, um sargento da PM e um traficante morreram em uma nova tentativa de invasão. Na semana passada, o delegado-titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), Cláudio Ferraz, admitiu que investigava os milicianos pela suposta venda por R$ 300 mil do controle da Kelson's para traficantes do Comando Vermelho, que voltaram a atuar no local.

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