Militância contra ditadura esquenta debate eleitoral

Principais personagens da atual cena política combateram o regime militar, que ruiu em 1985, quando 18% dos eleitores não tinham nascido

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2010 | 00h00

A ditadura militar acabou oficialmente há 25 anos. Do conjunto de 133 milhões de cidadãos que hoje compõem o colégio eleitoral, 18% nem tinham nascido naquele ano de 1985, quando a Presidência da República foi entregue a José Sarney ? o primeiro civil no cargo após 21 anos de mandatos de generais. Outros 24% tinham menos de dez anos.

Do ponto de vista da experiência pessoal, portanto, a ditadura não foi vivida ou constitui uma vaga lembrança para 42% do eleitorado. Apesar disso, estão surgindo sinais de que o tema voltará a ganhar espaço no debate eleitoral deste ano.

O primeiro deles foi uma campanha, ainda em curso na internet, contra a candidata Dilma Rousseff, do PT, apontando-a como terrorista e sequestradora. O segundo foi a resposta a essa campanha, no programa partidário do PT, na semana passada, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a candidata. Disse que lutou pela democracia e a comparou a Nelson Mandela, na resistência ao apartheid.

No domingo, Marta Suplicy, que deve concorrer a uma cadeira no Senado, fez novo disparo. Disse que quem sequestrou mesmo na ditadura foi Fernando Gabeira ? o candidato do PV ao governo do Estado do Rio e aliado de José Serra, o tucano que está em campo para disputar a Presidência com Dilma.

Pode-se dizer que o elemento desencadeador dessa retomada daquele período histórico é o desembarque de Dilma na cena eleitoral. Ela participou, de fato, de uma organização que defendia a resistência armada e incluía no seu rol de ações assaltos a bancos e sequestros. Por causa disso, ela foi presa e torturada.

Mas não é tudo. Quem observar o teatro político verá que alguns dos principais personagens em cena começaram na ditadura. Gabeira participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. Serra ajudou a fundar a Ação Popular, que também se opunha os generais, embora sem recorrer às armas. Marina Silva, do PV, cresceu politicamente na resistência democrática. Lula foi preso por desafiar o poder ditatorial. Seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, amargou o exílio por defender a democracia.

Essas e outras histórias têm sido revividas e exploradas em cada eleição. Ora para enaltecer o candidato, mostrando-o como um defensor da democracia, ora para atacá-lo. Até 2002, o passado de Lula era lembrado pelos seus opositores como símbolo de baderna e insegurança ? por causa das greves que conduziu e pelo apoio que dava às ações dos sem-terra.

Para o cientista político Alberto Carlos Almeida, autor do livro A Cabeça do Eleitor, o efeito dessas reverberações, para o bem ou para o mal, já não têm o peso que seus autores pensam ter. "O eleitor ouve como curiosidade e pergunta: e agora? Vamos discutir o que é mais importante?"

Na opinião de outro analista político, Marco Antonio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas, o debate começou mal. Ele considerou errados tanto o ataque a Dilma quanto a resposta petista. "Ter lutado contra a ditadura é algo positivo do ponto de vista da democracia."

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