Militância se volta para temas locais

Longe dos holofotes, movimentos apostam em questões da cidade atrás de resultados mais rápidos

Celso Filho, Marcelo Osakabe e Mel Bleil Gallo,

13 Dezembro 2013 | 18h00

Os grupos que ajudaram a puxar protestos nas capitais brasileiras vivem em compasso de espera para 2014. Enquanto isso, a maioria se voltou para assuntos mais próximos, como o fortalecimento de seus grupos, e para questões mais ligadas a suas cidades, como mobilidade, moradia, segurança e utilização do espaço público.

O suplemento Focas ouviu representantes de movimentos sociais que participaram dos protestos em cinco capitais: São Paulo, Brasília, Rio, Fortaleza e Belo Horizonte.

Principal grupo das manifestações na capital paulista, o Movimento Passe Livre (MPL), por exemplo, tem atuado em questões específicas referentes a transporte fora da região central. Os militantes trabalham na conscientização em torno da mobilidade urbana, visitando colégios e entidades de bairro.

Para o integrante do movimento Caio Martins, de 19 anos, estudante de História na USP, as grandes manifestações são apenas um dos momentos da mobilização. “A Avenida Paulista, de certa forma, é um palco de grandes espetáculos, mas a força do movimento vem da construção que ele faz no dia a dia.

Cada vez que a gente sai à rua, deveria haver um processo anterior de organização.”

Em Belo Horizonte, onde mais de 150 mil marcharam até o Mineirão no dia 22 de junho, os movimentos se

concentraram, após as manifestações, na Assembleia Popular Horizontal, uma experiência tentada em

outras capitais, mas sem o mesmo sucesso. Cerca de 150 pessoas se encontram mensalmente para discutir temas como a Lei de Iniciativa Popular pela tarifa zero no transporte público na cidade. Já foram colhidas mais de 10 mil das 95 mil assinaturas necessárias para o projeto entrar em discussão na Câmara.

Em Fortaleza, o movimento reivindicatório não teve o mesmo fôlego. Após os protestos, os manifestantes se concentraram na defesa do Parque do Cocó, o maior da cidade. Cerca de cem pessoas acamparam durante três meses para tentar impedir a construção de um viaduto que passaria no local, mas sem resultado. “Não conseguimos nada. A passagem continua a R$ 2,20 e o viaduto está sendo construído”, lamenta o corretor de imóveis Ítalo de Holanda, um dos criadores do movimento Pé No Chão, que nasceu ainda em junho.

Campanha. Em levantamento divulgado em novembro, a plataforma de petições online Change.org mostrou que, das 29 campanhas vitoriosas que hospedou em 2013, 17 foram locais – a maior parte com menos de mil assinaturas. Apenas sete tiveram caráter mais amplo, como a campanha contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37. A campanha reuniu 460 mil assinaturas, a segunda maior no mundo neste ano.

Para a coordenadora de campanhas da Change.org, Adriana Tanaka, pressionar o governo federal é mais difícil, pois a dinâmica passa a ser mais lenta. “Não é como uma campanha na cidade, em que você joga na imprensa local e todo mundo fica sabendo”, afirma. “Pressionar a Dilma é complicado porque ela é alvo de muitas campanhas que muitas vezes nem são do alcance dela.”

A possibilidade de ter demandas atendidas rapidamente também contribui para a ação local. “Acampar na frente da casa do governador e cobrar resposta sobre moradia é mais fácil que ir contra as remoções no País. É mais concreto”, diz a militante do Comitê Popular da Copa do DF, Larissa Araújo, de 22 anos.

Além disso, os temas se adaptaram ao contexto de cada cidade. No caso do Rio de Janeiro, o debate sobre segurança pública e violência foi ao topo das reivindicações. “Havia muitas pautas nacionais e muitas outras locais. O sumiço do Amarildo é bem local e pode ser levada para todo o Brasil, uma vez que as polícias militares de todo o País têm essa mesma forma de agir”, diz o humorista carioca Rafael Barbacena, de 27, conhecido como Rafucko.

Os militantes acreditam que, com a luta local, a mobilização se amplie. “Acho que as pessoas não vão cansar. Tem essa história de que ‘o povo acordou’, mas não foi assim. Alguns despertaram, mas já tinha gente na luta, como o próprio MPL. Na Copa, isso deve aumentar”, calcula Clariane Santos, de 19 anos, do coletivo Luta Popular de São Paulo.

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