Militante do PC do B acusa ministro de corrupção

Policial revelou a Veja esquema de desvio de recursos de programa do ministério, do qual também é investigado; Orlando Silva desqualifica denúncia

AMANDA ROMANELLI, ENVIADA ESPECIAL / GUADALAJARA, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2011 | 03h06

O ministro do Esporte, Orlando Silva, é apontado como principal beneficiário de um suposto esquema de desvio de dinheiro público por meio de convênios de sua pasta com organizações não governamentais (ONGs) pelo policial militar João Dias Ferreira, investigado como um dos integrantes do grupo.

Em entrevista à Veja, o policial militar e militante do PC do B confirma o favorecimento do partido nos contratos e afirma que o ministro recebeu pessoalmente remessas de dinheiro do esquema. Ele citou ainda outra testemunha do esquema, Célio Soares Pereira, que também confirmou à revista ter entregue dinheiro ao ministro e ao motorista dele na garagem do prédio do ministério. Pereira controlava a arrecadação de ONGs cadastradas no Programa Segundo Tempo, do ministério.

O ministro interrompeu sua agenda de trabalho ontem em Guadalajara, cidade em que são realizados os Jogos Pan-Americanos, para rebater, por quase 40 minutos, as denúncias. Afirmou que vai processar por calúnia José Dias Ferreira e Célio Soares Pereira e que acionou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para que as denúncias sejam investigadas pela Polícia Federal. Também afirmou estar disposto a ir ao Congresso para dar explicações sobre o assunto.

"Sei que rapidamente, até mais do que as pessoas imaginam, a verdade virá à tona. São acusações gravíssimas e vou reagir à altura." Orlando Silva disse que se encontrou com o policial uma única vez. "O único momento que encontrei este caluniador foi em uma audiência, no ano de 2004 ou de 2005, por recomendação do então ministro Agnelo Queiroz. Ele era presidente de uma entidade relativa ao kung fu em Brasília e queria estabelecer um convênio com o ministério. Foi a única vez que encontrei essa pessoa. Sobre a segunda pessoa (Célio), o que posso dizer é que não faço a mínima ideia de quem seja. Nunca o encontrei."

Orlando confirmou que houve assinatura de convênio com as entidades lideradas por José Dias Ferreira, mas disse que irregularidades no uso das verbas (que seriam da ordem de R$ 3 milhões), descredenciaram as ONGs. "Existe um processo no TCU que exigirá a devolução destes recursos porque não temos uma conduta complacente com a má utilização de recursos públicos. O fato de ele ter sido membro do meu partido e de ter relações políticas em Brasília não me interessa. Pode estar sendo criada uma cortina de fumaça em torno deste assunto."

"Agora, uma pessoa que já foi presa, é alvo de um inquérito policial, vira a fonte da verdade. Coloco-me à disposição para ir ao Congresso, já na próxima semana, para dar explicações. Estou consciente da minha conduta e do meu compromisso ético. Um bandido me acusa e eu que tenho que me explicar."

O ministro afirmou que entrou em contato com a presidente Dilma Rousseff tão logo soube da denúncia - os dois conversaram por telefone. A presidente, que estava ontem em Porto Alegre para comemorar o aniversário de um ano do neto Gabriel, evitou falar com a imprensa.

"O que fiz foi procurá-la para informar da notícia. Foi uma conversa muito direta. Vou seguir minha agenda de trabalho, foi a recomendação que recebi da presidente." Orlando Silva deve chegar ao Brasil hoje.

Vidraça. O ministro também defendeu o Segundo Tempo, alvo de inúmeras denúncias de desvio de verbas. Disse que a partir de agora os parceiros do programa serão escolhidos por meio de uma seleção pública. Outra medida é a da exclusão de convênios com entidades privadas.

O Estado revelou, em uma série de reportagens publicadas em fevereiro, que o Segundo Tempo se transformou em instrumento financeiro do PC do B. Sem licitação, o ministro entregou o programa a entidades ligadas à sigla, cujos contratos com ONGs somaram R$ 30 milhões somente em 2010. / COLABOROU A SUCURSAL DE BRASÍLIA

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