Militar pediu ''corretivo'' ao tráfico

Tenente admite que descumpriu ordem para soltar 3 jovens e fez tropa entregá-los à morte em favela do Rio

Pedro Dantas e Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2008 | 00h00

Um "corretivo" para não perder o prestígio diante da tropa. Essa foi a justificativa dada por um tenente do Exército, de 25 anos, ao titular da 4ª Delegacia de Polícia (DP), Ricardo Dominguez, para levar três moradores do Morro da Providência, no centro, até traficantes rivais do Morro da Mineira, na zona norte do Rio. Os jovens foram achados mortos anteontem no Aterro Sanitário de Gramacho, na Baixada Fluminense. "Vejam o resultado dessa ação inconseqüente, inadmissível, que deverá ser repreendida de forma exemplar", observou ontem o ministro da Defesa, Nelson Jobim.Onze militares estão detidos no 1º Batalhão, na Tijuca, e tiveram a prisão temporária decretada anteontem pela Justiça do Rio, por dez dias. O estudante Marcos Paulo da Silva Correia, de 17 anos, e os pedreiros Wellington Gonzaga Costa, de 19, e David Wilson da Silva, de 24, foram enterrados ontem. Após o sepultamento, houve um quebra-quebra na sede do Comando Militar do Leste, no Palácio Duque de Caxias, próximo da Providência. Segundo Jobim, os soldados poderão até ser enquadrados como "co-autores" dos crimes, caso seja comprovado que as três mortes foram provocadas por essa ação da tropa. Conforme a legislação, um soldado pode negar-se a cumprir ordens superiores que sejam ilegais e pode pedir explicações sobre o que deve fazer - até por escrito. Também não se pode alegar desconhecimento do que determinada ação pode acarretar."Não há dúvidas de que eles entregaram os jovens. A explicação do oficial é de que foi um corretivo, porque houve um desacato. Os jovens teriam ofendido os militares e ele os levou a um superior, que ordenou a liberação (o que é confirmado pelo Comando). Por conta própria e com medo de ter a moral abalada, o tenente ordenou à tropa que entregasse as vítimas aos traficantes", revelou o delegado. Segundo ele, os militares aparentavam tranqüilidade e o tenente "não demonstrou nenhum arrependimento". O delegado tem a informação de que houve um contato prévio entre os militares e os traficantes da Mineira, dominada pela facção Amigo dos Amigos (ADA). Em depoimento, um soldado confessou ter guiado a guarnição até a Mineira, mas negou conhecer os traficantes. De acordo com Dominguez, o caminhão com os 11 militares seguiu até um lugar seguro e o sargento, um morador da Baixada Fluminense, iniciou uma negociação por meio de sinais. Um criminoso apareceu desarmado e levou as vítimas até os traficantes. A cena foi presenciada por vários moradores.O Exército abriu um inquérito policial-militar (IPM), que deve ser concluído em 20 dias. De acordo com informações obtidas com as Forças Armadas, o tenente responsável pela ação já depôs ontem e voltou a assumir a responsabilidade por levar os jovens à favela, mesmo sabendo que eles "iam ser hostilizados por gangue inimiga".De acordo com os depoimentos dados aos oficiais, as vítimas já haviam "provocado" os militares anteriormente. Foram detidos e entregues à Polícia Civil - "que os soltava, sem fazer nenhum registro".Ainda conforme os depoimentos, na manhã de sábado, quando saíam de um baile funk, os rapazes teriam provocado novamente os soldados. Foi quando os militares decidiram "dar um susto" no grupo.Os acusados estão presos em unidades do Exército, em celas separadas, para evitar que combinem versões. Mais três detidos devem ser ouvidos hoje.

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