Militares admitem que traficantes seguem no Alemão mesmo ocupado

O Estado revelou hoje trechos de documentos confidenciais do Exército que apontam que o tráfico de drogas continua ativo nas favelas

Pedro Dantas, O Estado de S. Paulo

11 de janeiro de 2011 | 18h15

RIO - A Força de Pacificação admitiu ontem que traficantes permanecem no interior do Complexo do Alemão e do Complexo da Penha e pediu aos moradores que denunciem os criminosos.

 

"Precisamos quebrar este círculo de medo destes pequenos focos de resistência, pois a presença deles mantém a população acuada e sem confiança para fazer as denúncias aos canais competentes", afirmou o porta voz dos militares, o major do Exército Fabiano Carvalho. Depois de O Estado revelar trechos de documentos confidenciais do Exército que apontam o tráfico de drogas ativo nas favelas, os militares apreenderam 143 papelotes de cocaína prontos para a venda no Complexo do Alemão e uma pequena quantidade de munição para pistola e fuzil.

 

Em operação na manhã desta terça-feira, 11, a Polícia Civil apreendeu 17 automóveis e nove motos roubadas no conjunto de favelas. A Divisão de Homicídios da Polícia Civil investiga dois assassinatos de moradores da Vila Cruzeiro, que podem ter sido represálias dos traficantes.

 

Nos documentos do Exército, há um informe de que os mototaxistas atuam como olheiros do tráfico. Hoje, o Exército apreendeu um jovem de 17 anos que circulava pelo Complexo do Alemão com uma moto roubada. Ele alegou que comprou a moto de um amigo para trabalhar como trabalhar como mototaxista e foi liberado. O adolescente é sobrinho de Diego Raimundo da Silva dos Santos, o Mister M, que está preso desde o dia 27 de novembro, quando se entregou no dia da ocupação dos complexos de favelas. Mister M teria sido um dos responsáveis pela execução do traficante Antônio José Ferreira de Souza, o Tota, em setembro de 2008.

 

No início da noite de segunda-feira, o comandante do Batalhão de Campanha da Polícia Militar nos conjuntos de favelas, Edvaldo Camelo, foi exonerado do cargo. Ele permaneceu menos de um mês no comando da tropa. Oficialmente, a PM alegou "questões administrativas". Os moradores se queixam da pouca presença de policiais no interior da favela e alegam que os militares da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército não reconhecem os criminosos.

 

"Em relação aos criminosos procurados, todas as bases militares possuem fotos deles e o comando de cada patrulha leva estas imagens. No entanto, aqueles que permanecem nos complexos do Alemão e da Penha não possuem ficha criminal podem ser presos apenas em casos de flagrantes", explicou o major Carvalho.

 

Outro motivo que pesou para a exoneração foi a falta de punição para 42 policiais militares envolvidos em denúncias de furtos, extorsões e abusos contra moradores do Alemão e das favelas da Penha. "Registrei queixa na 22ª Delegacia de Polícia da Penha, fui recebido por deputados na Assembleia Legislativa e até prestei depoimento na Corregedoria da PM, mas até agora nada aconteceu", disse Ronai Braga, de 32 anos. Morador da Vila Cruzeiro, ele acusa policiais militares pelo roubo de R$ 31 mil durante uma revista em sua casa. A quantia era referente à uma indenização trabalhista.

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