Militares apontam tenente como responsável por mortes no Rio

Mesmo após ter recebido ordem para liberar, Ghidetti teria decidido dar um 'corretivo' nos jovens

Clarissa Thomé, de O Estado de S. Paulo,

18 de junho de 2008 | 00h18

Os depoimentos de oito dos 11 militares acusados de terem entregue três jovens moradores do Morro da Providência para traficantes de uma facção rival do Morro da Mineira apontam para o tenente Vinícius Ghidetti como único responsável pela operação. Mesmo depois de ter recebido a ordem de um capitão para liberar os rapazes, detidos por desacato, Ghidetti teria decidido dar um "corretivo" nos jovens. "Tô c... para o capitão", teria dito o oficial, segundo os praças que prestaram depoimento ontem. Os oito militares foram ouvidos entre 13h e 21h30.   Veja também: Nelson Jobim pede calma ao Exército para superar crise no Rio Forças Armadas não estão aptas a combater a violência, diz Lula Lula se diz indignado com mortes no Morro da Mineira Exército pede desculpas a mães de jovens mortos no Rio Jobim decidirá se Exército continua operação em favela Delegado do Rio pode pedir quebra de sigilo de militares O Exército está preparado para atuar na segurança  pública?    O delegado Ricardo Dominguez ouviu os acusados para determinar a participação de cada um deles no episódio. Ele definiria ainda quais seriam indiciados por seqüestro ou homicídio triplamente qualificado.   Até as 23h, o delegado não havia dado entrevista. Os 11 militares estão detidos no 1º Batalhão de Polícia do Exército desde domingo, quando a Justiça determinou a prisão temporária do grupo por 10 dias. Pela manhã, Dominguez havia dito que pretendia pedir a quebra do sigilo telefônico do tenente por suspeitar que o oficial teria feito contato prévio com traficantes da Mineira, antes de levar os rapazes para o morro.   O advogado Walmar Flávio de Jesus, que defende um sargento e três soldados, disse que todos negaram qualquer telefonema. "Os depoimentos de todos os praças indicam que eles estavam apenas obedecendo ordens de seu superior. Eles foram informados de que deixariam os jovens no Sambódromo, para que voltassem a pé ao morro da Providência. Eles estavam sob a lona do caminhão e foram pegos de surpresa ao chegar ao morro da Mineira. ", disse Jesus.   Essa informação é semelhante à que foi dada pelos dois sargentos e um soldado que são clientes do advogado Márcio Frazão. Segundo o advogado, os militares contaram que desceram do caminhão quando o veículo já estava cercado por traficantes. "Cada um tomou posição para se defender. Um deles ficou atrás de um poste.   O sargento Bruno (Eduardo de Fátima) disse que nunca viu tanto civil armado." Os depoimentos dos clientes dos dois advogados divergem em um ponto. Segundo os militares defendidos por Frazão, o sargento Leandro Maia Bueno acompanhou o tenente Guidetti no momento da entrega dos jovens aos traficantes. Walmar de Jesus, que defende Maia, nega que o sargento tenha acompanhado o oficial.   "Todos estavam no local (da entrega), foi uma situação inesperada. Muitos deles não conheciam a região e foram pegos de surpresa pela atitude do oficial", afirmou Jesus. Hoje, o delegado vai ouvir um adolescente que conseguiu escapar da abordagem dos militares, ainda no morro da Providência, e uma outra testemunha, que ele não quis revelar quem seria.   Justiça   Ontem, a procuradora da República Neide Mara Cavalcanti de Oliveira oficiou ao delegado e à promotora Monica Velasco, do Ministério Público Estadual, que atua com o delegado Dominguez na apuração desse caso, solicitando cópia de tudo o que já foi feito. O entendimento na Procuradoria da República é que, por se tratar de um crime cometido por militares do Exército, o caso é da alçada da Justiça Federal e não da Justiça do Estado do Rio. Caso o juízo estadual não entenda assim, poderá haver o chamado conflito de competência a ser decidido nos tribunais superiores.

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