Militares brasileiros colecionam denúncias de violência

Episódio mais recente ocorreu no morro da Providência, quando 3 jovens foram entregues para traficantes rivais

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2008 | 19h21

A denúncia do adolescente de 16 anos que teria sido queimado por militares da 9.ª Brigada de Infantaria Motorizada soma-se aos outros casos de agressão, tortura e morte que envolvem praças e oficiais do Exército. Num dos casos mais recentes, ocorrido em 14 de junho, militares entregaram a traficantes do Morro da Mineira, na zona norte, três jovens detidos por desacato no Morro da Providência, dominado por facção rival à que comanda a venda de drogas na Mineira.   Os rapazes, sem antecedentes criminais, foram mortos. Um tenente, três sargentos, um cabo e seis soldados são réus nos processos que correm na 7ª Vara Federal Criminal e na 2.ª Auditoria da Justiça Militar. O episódio levou o ministro da Defesa, Nelson Jobim, a apresentar um pedido público de desculpas e o presidente Lula recebeu os familiares dos mortos.   Em 13 de junho, um cadete morreu e dois foram internados depois de passarem mal numa bateria de exercícios na Academia Militar das Agulhas Negras. Ainda em junho, o sargento Laci Marinho de Araújo, que assumiu um relacionamento gay, denunciou estar sofrendo agressões numa unidade militar em Brasília, em que estava detido. O Exército negou.   Em março de 2006, um recruta acusou um tenente e cinco soldados de agressão, durante operação para recuperar armas roubadas do Exército no Morro da Providência. Em novembro de 2005, a Rede Globo divulgou vídeo com as imagens de um trote violento a que foram submetidos terceiros-sargentos do 20.º Batalhão de Infantaria Blindado do Exército, em Curitiba. Doze pessoas participaram das agressões, que incluíram afogamento em balde d'água, queimaduras com ferro de passar roupa e choques elétricos.   Em 2003, o soldado do Exército Rafael de Souza Maris, de 20 anos, foi encontrado morto dentro de uma caixa d'água, no Forte da Urca. Três soldados foram acusados do assassinato. A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra, enviou relatório, em 2001, às Organizações das Nações Unidas, relacionando casos de agressões em instituições militares nos anos 90. Ela reuniu 23 denúncias.   "De lá para cá esses casos estão crescendo. É preciso que se responda que treinamento é esse que os militares estão recebendo, que os leva a cometer essas arbitrariedades. É claro que cada um tem que responder pelo que fez. Mas é muito fácil individualizar e dizer que é a ação de um sádico. Na verdade, o Estado tem que pensar em como é a formação desses militares", afirmou.

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