Militares suspeitam de pane numa das turbinas do jato que caiu em SP

Outra hipótese analisada por peritos é a de água ter se misturado ao combustível, deixando motor do Learjet inoperante

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

06 de novembro de 2007 | 00h00

Peritos da Aeronáutica encarregados de investigar a queda do Learjet que deixou oito mortos no domingo já têm fortes indícios de que uma pane numa das turbinas do jato esteja entre as causas do maior acidente da história do Campo de Marte, zona norte. A análise visual dos motores indica que um deles estava quase sem potência na hora do choque com imóveis da Rua Bernardino de Sena, Casa Verde. Mesmo que a pane se confirme, fontes militares ouvidas pelo Estado advertiram que é certo que outros fatores contribuíram para a tragédia.O que mais chamou a atenção dos investigadores foi a diferença no estado das turbinas. Uma ficou quase preservada, com parte da carenagem acoplada, e a outra, bastante danificada. Além disso, o spinner - cone de metal - de um motor estava amassado, ao contrário do observado no outro propulsor."Quando a turbina está girando e há uma colisão em vôo, o spinner age como uma broca de furadeira", explica um oficial da Força Aérea Brasileira que pilota jatos da família Learjet. "Se um amassou, é sinal de que estava em baixa rotação."O depoimento de testemunhas - que dizem não ter ouvido mais o barulho dos motores após a decolagem - e o fato de as turbinas terem sido achadas em pontos distantes do terreno reforçam as suspeitas dos investigadores. A turbina com o spinner amassado foi localizada pelos bombeiros no domingo. A outra estava debaixo de uma grande quantidade de escombros e só foi resgatada ontem pela manhã. Os destroços estão sendo levados para o Parque de Materiais da Aeronáutica, em um galpão vizinho ao Campo de Marte.O que ainda intriga os peritos é o fato de os pilotos terem perdido o controle do Learjet. Ao decolarem do Campo de Marte, jatos devem sempre virar à esquerda para não interferir nas rotas com destino ao Aeroporto de Cumbica. Inexplicavelmente, o Learjet foi para o lado oposto. Ainda que uma das turbinas tenha parado, dizem pilotos e especialistas em aviação civil, comandantes são treinados para evitar a queda. "O Learjet é extremamente ágil e veloz. Mesmo sem um dos motores, é possível continuar voando", disse o militar.Uma das linhas de investigação do Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes (Seripa) será justamente o treinamento da tripulação. Por lei, pilotos de jatos executivos devem treinar situações de emergência em simuladores uma vez por ano. Como não há simuladores de Learjet disponíveis no País, eles têm de ir para os Estados Unidos. "Isso encarece demais o treinamento e pode levar tanto o piloto quanto a empresa a burlar as normas", alertou o oficial.Sócio da Reali Táxi Aéreo, operadora do avião, Ricardo Breim Gobbetti afirmou que o piloto do Learjet, Paulo Roberto Montezuma Firmino, tinha todos os certificados exigidos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). "Ele veio de outra empresa de táxi aéreo, era um piloto muito experiente."Outra hipótese que será apurada pelos peritos é o eventual acúmulo de água nos tanques de combustível do jato. Embora o querosene de aviação seja puro, é comum que o vapor de água se deposite no fundo dos tanques. Para evitar isso, mecânicos costumam drenar tanques antes da primeira decolagem do dia. "Embora o Learjet tivesse feito outros vôos naquele dia, ainda é cedo para descartar essa possibilidade", avalia o diretor-executivo da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), Adalberto Febeliano da Costa. Ele explica que, se a água nos tanques entrar nos motores, as turbinas param de funcionar. O Seripa deve começar hoje a degravação da caixa-preta de voz do Learjet.

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