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Minas investiga excesso de corpos em funerária e cogita exumação para testar coronavírus

Funerária em BH recebeu 41 cadáveres em 48 horas, alguns com laudo de covid-19, apesar de o governo ainda não ter confirmado nenhuma morte por coronavírus

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2020 | 13h05

BRASÍLIA – O governo de Minas Gerais investiga a chegada de 41 cadáveres, em um intervalo de 48 horas, numa funerária do bairro de Nova Gameleira, em Belo Horizonte. Segundo boletim de ocorrência da Polícia Militar mineira obtido pelo Estado, os laudos das mortes apontam causas de insuficiência respiratória aguda, pneumonia e covid-19, apesar de o governo mineiro não ter confirmado, até esta sexta-feira, nenhuma morte por coronavírus.

O governo de Minas Gerais admite que corpos estão sendo enterrados no Estado sem que se saiba se a morte se deu por causa da nova doença. O diagnóstico do coronavírus depende de exames laboratoriais “realizados em vida, e não de necropsia”, afirma a secretaria de Saúde. “Após o término da contingência epidemiológica, caso a autoridade policial entenda ser necessária, a exumação do corpo a poderá ser realizada”, diz.

No dia 22 de março, a Polícia Militar mineira recebeu uma denúncia anônima, em que um morador relatava a existência de corpos acumulados em uma funerária da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ao chegar ao local, a equipe do 5º Batalhão se deparou com o gerente da funerária, que narrou que, entre os dias 20 e 22 deste mês, 73 cadáveres haviam chegado à funerária com laudos da causa da morte parecidos: pneumonia ou insuficiência respiratória.

Pelo menos um dos laudos, segundo a PM, apontava a causa da morte como coronavírus. O corpo era oriundo da cidade de Betim. O governo de Minas Gerais, apesar de admitir que investiga os casos, continuou afirmando, neste sábado, 28, que nenhuma morte foi confirmada no Estado por coronavírus. 

A Secretaria de Estado de Saúde explicou, no entanto, que a notação de covid-19 referente a este corpo não quer dizer, necessariamente, que a causa do óbito foi por coronavírus, e sim que a morte aconteceu durante o período de pandemia. 

Segundo a pasta, a confusão aconteceu porque a Polícia Civil teria orientado os médicos legistas a registrarem a descrição “morte em momento de vigência da pandemia pelo Covid19” em laudos de mortes suspeitas no Estado. 

“O objetivo da anotação era justificar a não realização do exame interno, no cadáver e não significa, absolutamente, que a causa da morte foi o Covid19”, justifica o governo, que afirma ainda que alterou a descrição das causas das mortes:

“De toda forma, para evitar qualquer interpretação equivocada, alterou-se a orientação original. Não sendo possível a determinação da causa do óbito, a declaração constará, apenas, causa indeterminada e outras informações constarão no laudo de necropsia enviado à autoridade policial.”

Número de cadáveres ‘extremamente elevado’

Aos militares, o gerente da funerária do bairro Nova Gameleira disse que o volume de cadáveres era “extremamente elevado para a rotina daquele estabelecimento”. “Em 30 anos de profissão nunca vi tantos corpos num curto intervalo de tempo”, afirmou o gerente aos policiais. Segundo o relatório de chegada de cadáveres da funerária, todos os corpos eram de falecidos com idade entre 49 e 90 anos de idade.

Por meio de nota, a secretaria de Saúde do Estado informou que “a situação mencionada está sendo avaliada e acompanhada pelos órgãos competentes”. E reafirmou que ainda não há óbitos pela doença no Estado. “Tão logo as informações sejam apuradas adequadamente daremos os devidos esclarecimentos”, disse.

O governo de Minas informou que a Polícia Civil, no último dia 21, havia orientado os médicos-legistas a priorizar, na necropsia, o exame cadavérico externo, com o objetivo de reduzir o agravamento da pandemia da covid-19, mantendo a obrigatória utilização do equipamento de proteção individual (EPI).

No Estado, há relatos de os corpos acautelados em câmaras frigoríficas do IML. A secretaria de Saúde diz que se referem a “casos em processo identificação, que aguardam autorização para o enterro e não se referem à pandemia do Covid19.” 

Em nota, o Grupo Zelo afirmou que houve um aumento nos últimos dias, mas "todos os atendimentos estão dentro da normalidade". "O Grupo Zelo não é responsável pela emissão de atestados de óbitos, portanto, está impossibilitado de atestar a causa mortis dos atendimentos realizados. Todos os nossos colaboradores estão preparados para fazer os atendimentos seguindo normas de segurança e portando os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) necessários", afirmou. 

De acordo com a funerária, não houve, até o momento, comunicação de nenhum caso de covid-19 por parte dos hospitais. "Quando há caso específico de risco biológico para doença infecto contagiosa como a covid-19, a recomendação das autoridades de vigilância sanitária é de não se fazer a tanatopraxia, ou seja, o corpo deve ser levado ao laboratório, onde é colocado na urna. A mesma deve ser lacrada e enviada diretamente para sepultamento".

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