Minas terrestres encontradas no Rio são de uso militar

Numa apreensão inédita, a Polícia Civil encontrou oito minas terrestres armazenadas em um buraco no chão de uma casa, na favela da Coréia, na zona oeste. Um material de guerra, que, segundo apolícia, tem alto poder de destruição. Além dos explosivos, foram recolhidos 30 mil cartuchos de munição para fuzil e pistola, 161 granadas, 11 coletes, sendo dois à prova de balas, um fuzil AR-15 e duas botas. A Secretaria de Segurança Pública estima em R$ 500 mil o valor do armamento apreendido.?Essa é uma mina antipessoal (existe a antiveículo) e é capaz de mutilar até três homens de uma vez. É produzida para interromper oavanço de uma infantaria e só é usada por militares?, disse o delegado Carlos Oliveira, da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (DRAE). Segundo ele, todo o material está em perfeito uso. A operação na favela, que envolveu 26 agentes da Polinter, ocorreu por volta de 9 horas e tinha o objetivo de prender o traficante Robson Andrade da Silva, o Robinho Pinga, que controlaria o tráfico na zona oeste. O material estava armazenado em prateleiras no buraco de trêsmetros quadrados e 2,5 metros de profundidade, que ficava em um dos quartos. Uma porta de ferro tampava o esconderijo, que foi construídocom azulejos. Como o terreno era úmido, os bandidos tiveram o cuidado de instalar uma bomba de sucção para evitar que os explosivos fossem danificados pela água. A polícia estava monitorando o local havia dois meses. ?Fomos prender o Robinho Pinga e acabamos achando o paiol dele. É um prejuízo para sua quadrilha?, disse o delegado Rodolfo Waldeck, daPolinter. ?Vai ser feito um rastreamento dos lotes para descobrir de onde as minas e as granadas vieram. Queremos saber onde estão comprando. É umarmamento que assusta, uma coisa nova para a gente?, disse Waldeck. Segundo ele, todo o material é de uso das Forças Armadas e o ComandoMilitar do Leste não registrou roubo de armamento. O secretário de Segurança Pública, Anthony Garotinho, esteve na Polinter, no Centro, e disse que o armamento não é do Rio e seria distribuído a outras favelas. ?Essa apreensão reforça o que tenho dito. Essas armas não são fabricadas aqui. São de uso militar. Resta saber como estão chegando.?Desvio ? O especialista Ronaldo Leão, que analisou o material, confirmou que a carga pode ter sido desviada do Exército Brasileiro ou de outros países. Segundo ele, as minas foram produzidas na fábrica belga PRB (Poudrieres Reunies Belge), uma indústria antiga que abasteceas Forças Armadas de todo o mundo. As granadas, segundo ele, vieram da RJC, empresa de material bélico de Lorena (SP), antiga Companhia deExplosivos de Valparaíba.Leão, que é professor do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente do Instituto de Defesa Nacional, informou que as granadas devem ter sido fabricadas bem recentemente. As minas não são tão novas, segundo ele, mas estão em bom estado. O mesmo tipo de explosivo foi largamente usado na África, em países como o Sudão, Líbia, Moçambique e Angola, e durante a guerra Irã-Iraque.O professor explicou que as minas ? usadas, legalmente, somente por exércitos e fuzileiros navais ? têm como função substituir a tropa edemarcar território. ?Nos lugares onde há mina, não é preciso colocar tropa?, disse. ?No caso do tráfico, onde fossem colocadas as minas, não haveria necessidade de posicionar um soldado do tráfico. Eles colocariam as minas nos acessos das favelas para vitimar os policiais ou traficantes rivais.? Ele lembrou também que as minas antipessoais são feitas para incapacitar permanentemente o inimigo, e não matá-lo. ?O objetivo é arrancar a perna e os testículos?.

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