''Mineirismo'' contra ''lulismo''

Hélio Costa, que é tratado como 'forasteiro', reclama da ingratidão com os investimentos da União

, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2010 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é protagonista na batalha eleitoral contra o PSDB do ex-governador Aécio Neves em Minas Gerais, mas o candidato da chapa PMDB-PT ao Palácio da Liberdade, senador Hélio Costa, não conseguiu reproduzir no Estado o confronto lulismo-aecismo.

Para evitar o embate com o líder que tem 80% de popularidade no Brasil, fugindo da nacionalização da campanha mineira quando o presidenciável tucano José Serra ia mal nas pesquisas, Aécio criou a coligação Minas Somos Nós. A partir daí, o aecismo virou "mineirismo" e quem é de fora e dá palpite na eleição mineira - inclusive Lula - sai com o carimbo de "forasteiro". Hélio Costa, que tem como candidato a vice o ex-ministro do Bolsa-Família Patrus Ananias (PT), acusa o golpe. "Veja a que ponto chegou a audácia do governo Antonio Anastasia (PSDB)", protesta o ex-ministro das Comunicações, ao lembrar que "Lula pôs R$ 40 bilhões de investimentos e custeio no Estado" ao longo dos últimos oito anos.

Não por acaso, as críticas são todas dirigidas ao atual governador, e não ao padrinho que quer fazer o sucessor. O adversário sabe que Aécio desfila pelo Estado como uma espécie de popstar da política, surfando na mesmíssima porcentagem de popularidade que protege Lula. "Nossa candidata (à Presidência, Dilma Rousseff) nasceu em Belo Horizonte e o Lula é o presidente que fez mais por Minas em toda história, exceto Juscelino Kubitschek. Com tudo isso, o Anastasia consegue dizer que o Lula é um estrangeiro em Minas Gerais", queixou-se Hélio na quinta-feira, a bordo do jatinho da campanha que o conduziu a Passos e Uberlândia, onde participou de carreatas e caminhadas em busca de votos.

Àquela altura, o programa eleitoral dos tucanos já havia exibido um filmete estrelado pelo deputado Ciro Gomes, do PSB, partido que está com Dilma na disputa presidencial e com Aécio em Minas. Depois de falar da "admiração que o Brasil sempre teve pelos homens públicos mineiros", o que "só fez aumentar com o jeito novo de governar de Aécio e Anastasia", Ciro saiu com esta: "Se você acha que depois de dizer tudo isto eu iria me aventurar a pedir para que você vote Anastasia para governador, nada disso. Como amigo de Minas eu sei muito bem que o mineiro sabe ouvir as pessoas que gostam de Minas e não são daqui, mas na hora de decidir as questões de Minas, elas são decididas em Minas".

Como Ciro é bastante amigo de Aécio, os marqueteiros da campanha não tiveram nenhuma dificuldade de colher o depoimento que alfineta o presidente Lula. Bem no espírito da campanha, que tem como símbolo o triângulo estilizado da bandeira de Minas e é embalada por um jingle com um refrão que diz: "Sou brasileiro filho de Minas Gerais, a liberdade é o sonho que nos faz. Seguir em frente, levantar a nossa voz, quem sabe o que é melhor para Minas somos nós".

Assim que Anastasia engatou uma trajetória de subida nas pesquisas de intenção de voto, Hélio reforçou a presença de Lula e Dilma no rádio e na TV. Foram 15 dias de mensagens de Lula nos programas eleitorais e discursos do peemedebista pelo interior. Agora, Lula e Dilma pedem voto para Hélio diretamente ao eleitor, por telefone. A candidata gravou mensagem de telemarketing especialmente para a reta final, mas a fala do presidente foi extraída de uma das mensagens exibidas no programa de televisão.

Nos últimos 40 dias, a candidatura tucana registrou um crescimento de 25 pontos porcentuais na preferência do eleitorado. O Instituto Datafolha, que apontara 17% das intenções de voto para Anastasia em meados de agosto, registrou um empate um mês depois e, agora, dá ao governador cinco pontos de vantagem, em um placar de 42% a 37%. Até 9 de setembro, os dois ainda estavam em empate técnico, com vantagem para o candidato do PMDB (39% para Hélio e 36% para o tucano). Em 15 dias, Anastasia cresceu seis pontos e o adversário caiu dois. A expectativa geral é de que a disputa se encerre no primeiro turno. O levantamento do Datafolha já aponta para uma vitória de Anastasia, com 51% dos votos válidos.

Neste cenário, o esforço de Hélio para virar o jogo é grande. Na terça-feira, uma infeliz coincidência de agendas o levou a Pouso Alegre, reduto aecista, pouco antes do desembarque dos adversários. Às 12h 43, ele passou pelo desconforto de atravessar a praça Senador José Bento, no centro da cidade, em uma caravana minguada e em meio a um bandeiraço da militância adversária, que aguardava a chegada dos tucanos.

O desagravo veio na quinta-feira em Passos e Uberlândia, dois de seus mais fortes redutos eleitorais no Estado. Depois de uma carreata com a participação de mais de 200 carros, muitas bandeiras e animação, Hélio seguiu direto do aeroporto para a rodoviária central e embarcou no primeiro ônibus que parou na plataforma rumo à periferia. Foi espremido no meio do povo, "jogando conversa fora" com passageiros, que ele se deslocou. A pé, visitou três bairros populares. Trocou apertos de mãos e abraços em padarias, bares, mercadinhos, oficinas mecânicas e até com operários literalmente descamisados em meio à poeira que sai dos buracos das obras de esgoto sanitário.

Foram três horas de caminhada sol a pino, em que Hélio manteve a elegância em sua calça de linho clara e a camisa cor-de-rosa, mangas longas arregaçadas. O desconforto do calor de 35 graus e os 71 anos de idade foram disfarçados com sorrisos largos e passos acelerados. "Cada bairro desses é uma cidade de 40 mil habitantes e as pessoas não estão acostumadas a este contato mais íntimo. Vale a pena", disse Hélio já no avião, enquanto enxugava o suor e se refrescava com um refrigerante bem gelado.

A turma de Aécio, na tentativa de conquistar as duas vagas para o Senado em dobradinha com o ex-presidente Itamar Franco (PPS), ao mesmo tempo em que reelege Anastasia, tem se desdobrado em viagens pelo Estado, algumas sozinho. Disposto a multiplicar a campanha na reta final, Aécio aproveitou a quarta-feira para ir a Boa Esperança, Varginha e Sete Lagoas (esta última com Itamar), enquanto Anastasia cuidava do governo e da preparação para o debate promovido à noite por uma emissora de TV local.

No dia seguinte, Anastasia foi a Curvelo e a São Francisco com Itamar pela manhã e, à tarde, juntou-se a Aécio nas carreatas e discursos rápidos, em Bocaiúva e Montes Claros. Os pequenos palanques são sempre improvisados em carroceria de caminhonetes da campanha, especialmente preparadas para os desfiles dos candidatos em carro aberto.

Só nos últimos dez dias Anastasia abriu seu programa de televisão ao presidenciável do PSDB, José Serra, exibindo um vídeo produzido pela campanha nacional. Nas conversas de bastidor, os tucanos admitem que Serra foi escondido na campanha. De fato, só quem acompanhou o programa de rádio de Hélio Costa ouviu Anastasia pedindo voto a Serra, em campanha no interior.

O sentimento em Minas é o de que Serra "roubou" a candidatura presidencial de Aécio. Como o tucano vinha em queda nas pesquisas de intenção de voto e a vitória de Dilma é uma certeza entre os mineiros frustrados com a candidatura do partido, falas de palanque em favor de Serra nunca vão para a tevê. O adversário colocou Anastasia no ar para combater a chapa "Dilmasia" e mostrar aos mineiros que o adversário está contra Lula e sua candidata Dilma. Mas o tucanato não se intimida. Usa a traquinagem de Hélio para reforçar a crença geral de que o trabalho ostensivo por Serra só serviria para puxar para baixo os candidatos do PSDB.

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