Mineiro integra clube fechado da alta-costura

Gustavo Lins veio ao Brasil com outros estilistas que trabalham na França para montar uma exposição durante a São Paulo Fashion Week

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2009 | 00h00

Passion. Essa é a palavra estampada na fachada do prédio da Fundação Bienal, no Parque do Ibirapuera, na zona sul, que a partir de hoje se transforma na sede da São Paulo Fashion Week - e ali faz uma homenagem ao ano da França no Brasil. Ontem, no corre-corre para acertar os últimos preparativos do local, que receberá as coleções do verão 2010, um grupo de nove criadores aterrissou no saguão de entrada da Bienal. Eles vieram de Paris especialmente para montar uma exposição aberta ao público em geral. Passaram a tarde vestindo manequins com suas coleções. De nacionalidades diferentes, donos de maisons, eles fazem parte de um seleto grupo de jovens criadores que pertencem à Federação da Alta-Costura Francesa, um grupo onde só entra convidado - e só após provar grande expertise no mercado. Entre os nove estilistas, o mineiro Gustavo Lins, de 48 anos, único brasileiro a ganhar essa chancela da federação. O Atelier Gustavo Lins fica no Marais, bairro descolado de Paris. Ele não é o primeiro estilista a montar uma maison na cidade. Ocimar Versolato foi para lá nos anos 90, depois de ter conquistado prestígio em solo nacional. Só que os negócios não foram tão bem, e ele teve de voltar. Lins deu mais sorte. Abriu sua loja há seis anos em Paris, onde está radicado há duas décadas.Assim que se formou em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o estilista mineiro, então muito jovem, resolveu ganhar o mundo. A primeira parada foi Barcelona. Na cidade espanhola, conseguiu uma bolsa de pós-graduação. "A cidade tem um vida noturna muito intensa, mas a Espanha é agressiva", diz Lins. "Fiquei dois anos, o tempo necessário para terminar o curso."Antes, porém, mostrou a um de seus professores os desenhos de roupas que vinha fazendo. Nas horas vagas, comprava livros de moldes, copiava algumas receitas, e aos poucos aprendeu a costurar sozinho. O professor achou ótimos os croquis e sugeriu que a construção de roupas fosse o tema de seu projeto de conclusão de curso. "Sempre admirei a alfaiataria. Quando era criança, em Minas, era costume a costureira e o alfaiate fazerem roupas para todos os filhos." Lins tem oito irmãos. "Quando comprava camisas da Mr. Wonderful (grife de sucesso dos modernos dos anos 80), pedia para a costureira da família arrumar porque eram malfeitas."A soma de um temperamento exigente com a noção das formas da arquitetura resultaram numa modelagem confortável e ao mesmo tempo mais justa ao corpo. E para chegar a esse corte, que virou um de seus diferenciais, foram 12 anos de estudo em modelagem. Muito tempo? "Na alta-costura, tudo é lento. Doze anos é o tempo médio para a formação nessa profissão. Em seu ateliê, ele produz prêt-à-porter de luxo para homens e mulheres. "Não existe mais alta-costura como nos velhos tempo." O processo de produção de uma roupa dessas é de alto padrão. A começar pelo gabarito dos profissionais envolvidos. "Um modelista pode ganhar até 500 mil por mês. Hoje as grifes internacionais ganham mais com os filhotes, como os acessórios e os perfumes." Antes de abrir o ateliê, o estilista passou pelas maisons de Kenzo, Galliano e Louis Vuitton. "Com essas grandes marcas aprendi o processo administrativo, produtivo e de criação." Para exposição, Lins trouxe quimonos e vestidos de crepe de seda com couro. OUTRAS CRIAÇÕES Cada estilista trouxe até oito peças para serem expostas na Bienal. O inglês Adam Jones, de 43 anos, escolheu modelos sensuais que expressassem um conceito importante de sua coleção, a funcionalidade. "Faço vestidos leves que não amassam. A mulher pode colocar dentro da bolsa e levar aonde quiser", diz Jones, que não trouxe peças casuais, mas de festa. Um dos destaques é um colete de pele pregado sobre uma base de laser, que é mais leve que uma blusinha de linha. Entre as peças produzidas pela estilista espanhola Estrella Archs, um vestido longo, aderente ao corpo, de uma espécie de malha canelada preta. "Prefiro as formas puras, mas nunca deixo de lado a comodidade", diz Estrella. "Penso sempre numa dançarina elegante que precisa de movimento."

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