Minha São Paulo

Paulistanos ilustres revelam seus lugares prediletos na cidade

O Estadao de S.Paulo

25 de janeiro de 2008 | 00h00

Oswaldinho da Cuíca, de 68 anos, sambista: "Gosto deste lugar principalmente pela importância histórica que tem para a cidade. Foi aqui no Pátio do Colégio que tudo começou. Localizado numa região elevada do centro, o terreno oferecia uma visão estratégica, importante para os padres, que eram constantemente atacados pelos índios. Também foi aqui que se criou, há quase 300 anos, a Congregação Nossa Senhora do Rosário dos Homens Preto, que depois foi transferida para o Largo do Paiçandu. Hoje, ela é conhecida como Igreja Nossa Senhora do Rosário. No Pátio do Colégio, ainda foram construídos o primeiro chafariz e a primeira igreja com cúpula de pedra feita por um escravo-alforriado, Thebas, um perito nesse tipo de trabalho. Tenho orgulho de tudo isso." Adriane Galisteu, de 35 anos, apresentadora de TV: "Quando mudei para Higienópolis, há 7 anos, não conhecia direito o bairro. Mas descobri que o bom daqui é que dá para fazer tudo a pé. São poucos os bairros que proporcionam isso aos paulistanos. Tirando Higienópolis, acho que só os Jardins, onde morei por muito tempo. Gosto de não depender do carro para circular. Vou a pé tomar sorvete, fazer compras no shopping. Quase todos os dias passo na banca de jornal da Praça Vilaboim, que tem todas as revistas importadas que interessam. Passo lá, sempre que volto da gravação do programa. Se não tenho tempo, faço uma listinha e alguém vai comprar para mim. É um dos meus pontos preferidos em São Paulo."Ernesto Paulella, de 94 anos, músico: "Estava com minha patroa, a Alice, no quintal desta casa, quando ouvi pela primeira vez o Samba do Arnesto, na Rádio Bandeirantes. Chamei a Alice e disse: ?Esta peteca aí é minha.? Ela não entendeu. Então eu expliquei: ? Este é o samba que o Adoniran Barbosa fez para mim.? Ele havia me prometido o samba em 1938, quando nos conhecemos na porta do edifício da Record, na Rua Conselheiro Crispiniano, no centro. Naquele dia, a Nhá Zefa (cantora) tinha me chamado para dar uma canja. O Adoniran ainda não era famoso, mas era pintoso para chuchu - um belo moço, com um bigodinho que só ele tinha. Era um cara muito bem alinhado." Djin Sganzerla, de 30 anos, atriz: "No coreto do Parque da Luz, meu pai (Rogério Sganzerla) conheceu minha mãe (Helena Ignez) nas filmagens do Bandido da Luz Vermelha. Hoje, faço papel de minha mãe na continuação do filme." Toquinho (Antonio Pecci Filho), de 61 anos, cantor e compositor: "Amo São Paulo. E, entre tantos pontos, o Edifício Copan. Nele, passei momentos marcantes de minha vida, entre namoros e emocionadas criações musicais." Mayana Zatz, geneticista e pró-reitora de Pesquisa da USP: "Tenho uma longa história com a USP. Foi aqui que me formei e fiz meu doutorado. E aqui tem tanto verde... Adoro o jardim da lanchonete da Faculdade de Biologia." Djalma Santos, de 79 anos, um dos melhores laterais-direitos da história do futebol: "Depois de participar de quatro Copas e de ser bicampeão do mundo - foram mais de cem partidas pela seleção brasileira -, hoje eu posso dizer que a maior emoção que senti na minha vida foi a de conquistar o título de campeão paulista pelo Palmeiras, no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o Estádio do Pacaembu. Tinha passado dez anos perseguindo esse título com a camisa da Portuguesa, time onde comecei minha carreira, em 1948. Mas só consegui quando fui para o Palmeiras. Até hoje lembro a emoção que senti naquele dia. E não foram poucas as emoções que o futebol me deu. Participei de quatro Copas - 1954, 1958, 1962 e 1966. E entrei no campo ao lado de grandes jogadores, como Pelé e Garrincha." Edgard Scandurra, de 46 anos, guitarrista e compositor: "Em 2006, eu, esposa e os dois filhos pequenos fizemos uma viagem gastronômica pela França, onde comemos em excelentes e descolados restaurantes. Isso aguçou meu sonho infantil de abrir meu próprio restaurante. Abri então, com meu sócio e chef Luis Emanuel, o Le Petit Trou. Comer para o paulistano é um programa realmente especial. Para cada tamanho de bolso, existe uma opção interessante de restaurante, uma pizza pelo telefone, um pastel de feira, uma feijoada no boteco ou um deleite gastronômico. Adoro cozinhar para meus amigos e meus filhos. Levo o meu jeito autodidático de ser para os meus pratos e aguardo os elogios. O Le Petit Trou é o meu buraquinho preferido da cidade." Amyr Klink, de 53 anos, navegador: "As minhas grandes aventuras começam sempre em terra, numa grande oficina naval, quase na divisa com o município de Itapevi, na Grande São Paulo. Neste galpão foram construídos os meus principais barcos, caso do Parati 2. Ele é o maior de todos. Foi nele, com apenas cinco tripulantes, que saí para alcançar a Península Antártica e realizar uma nova circunavegação. Minha viagem durou cinco meses, sendo 76 dias para completar a volta ao mundo. As próximas aventuras já começaram a ser planejadas, mais uma vez neste lugar." Nando Reis, de 45 anos, músico: "Quando era pequeno, saindo da casa de meu avô, que morava no Pacaembu, eu parava na ladeira para esperar o sinal. E foi assim que descobri, no intramuros do Cemitério do Araçá, a estátua do tempo. Não sei quem foi o artista que a criou, não sei o nome da obra nem sei desde quando ela ali está. Mas ela é minha, a minha pausa para olhar sua beleza escondida na dureza da cidade. Curiosamente não sinto nada de mórbido mesmo estando tão próximo do cemitério. Ela é o tempo, e o tempo é o que há entre a vida e nós." Zé do Caixão (José Mojica Marins), de 73 anos, cineasta e ator: "Nos anos 50, comprei aqui, nas bancas de flores do Largo do Arouche (no centro), meu primeiro buquê de rosas, que foi para aquela que seria a minha primeira mulher. Foi aqui também o meu primeiro jantar fora, no Gato Que Ri, restaurante que ainda existe. Era uma época em que, para sair com a namorada para jantar, era necessário levar a família toda da moça: pais, irmãos, a tia e até os avós. E finalmente saiu daqui, do Largo do Arouche, o cenário da selva do filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma, de 1964. Levamos para o cenário todo o verde que sobrou de uma grande poda de árvores do largo."Zé do Caixão ainda vai ao Largo do Arouche, às vezes, para ter os sapatos engraxados. Lá, é reconhecido na hora e tratado como cliente preferencial. Paulo Vanzolini, de 84 anos, compositor: "Conheço muita gente no Cambuci, e o Sampa virou bar de encontro dos amigos. É uma casa de gente simples e educada, com boa comida, boa bebida, bom violão e, se cismarmos, com um samba de lascar. Vou lá sempre com a minha mulher, Ana Bernardo, cantora, filha do Arthur Bernardo, um dos fundadores dos Demônios da Garoa. Às vezes, ela dá uma canja. Já cantou música minha no bar. É um lugar alegre e barato. Também tem sempre algo bom para comer. Se bem que eu como de tudo. Poucos sabem, mas fui soldado da Cavalaria entre 1944 e 1945. É verdade que não cheguei a ir para a guerra, mas soldado, sabe como é, come de tudo." Luciana Curtis, de 31 anos, modelo: "Hoje moro em Nova York, mas continuo com meu apartamento nos Jardins. E, sempre que estou na cidade, levo minha cachorrinha, a Mabel (uma terrier ruiva), para passear no Parque Trianon. A Mabel tem de sair de casa ao menos três vezes por dia. Gosto do Trianon porque é um parque diferente dos outros. Quando estou lá, não enxergo a rua, de tão fechada que é a vegetação. Fico isolada, no completo silêncio. Nem parece que estou na Avenida Paulista, coração da cidade. Aos domingos, o passeio é completo. Saio com meu marido e a Mabel, logo depois de um rápido café da manhã. Tomo só um copo de leite. Daí, vamos para o Trianon e depois para a feira de antiguidades do Masp, que fica bem em frente. Já comprei várias coisas na feirinha, como copos e óculos. Tem sempre alguma coisa bonita e bem diferente para ver." Especial São Paulo 454 anosReportagem: Eduardo Nunomura, Rodrigo Brancatelli, Valéria França e Eduardo Nicolau; Fotos: Eduardo Nicolau; Ilustrações: Carlinhos e Marcos Miller; Diagramação: Edson Maldonado e Eloy Roberto Pereira Mattoso; Edição: Luciana Garbin

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