Ministério Público denuncia líderes do PCC

O Ministério Público apresentou hoje a primeira denúncia por crime de formação de quadrilha contra Marcos Willian Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), além de outros treze integrantes. A denúncia será examinado pelo juiz Ruy Cavalheiro da 12ª Vara Criminal.O PCC, segundo os promotores Roberto Porto e Marcio Sergio Christino, que assinam a denúncia, foi fundada em 1993, com a meta inicial de extorquir detentos e seus familiares, bem como matar presos para dominar o sistema carcerário e fortalecer o tráfico de entorpecentes nos presídios. Com o passar dos anos, a organização passou a comandar - de dentro para fora das prisões - o tráfico de drogas em grande escala, extorsões, seqüestros, homicídios, atentados à bomba e outros crimes.O apogeu ocorreu recentemente, com a mega rebelião que se estendeu a todos os presídios do estado. O PCC utilizava-se de telefones celulares pré-pagos, cujas ligações foram interceptadas pela polícia, e de centrais telefônicas. Assim, houve aprimoramento no esquema de ordem hierárquica dentro do PCC. Surgiram os "pilotos" presidiários, que detém o poder de mando nos presídios, como representantes dos " fundadores" da organização.A denúncia aponta Marcola e Julio Cesar Guedes de Morais, o Julinho Carambola, como integrantes do "primeiro escalão" do PCC. Marcola comandava as várias atividades criminosas do grupo. Sua ex-esposa, a advogada Ana Olivatto, foi assassinada recentemente e sua morte está diretamente ligada à disputa de poder dentro da organização. O inquérito sobre o assassinato ainda não foi concluído. Em uma demonstração de força, após a morte da ex-mulher, Marcola ordenou a todos os presos que permanecessem de luto. Na Penitenciária do Estado, no complexo do Carandiru, tinham a posição de pilotos Agnaldo Souza dos Santos, vulgo Baianão, e Jair Facca Junior, vulgo Faca. No presídio de Ribeirão Preto, o piloto Alexandre Aparecido Fernandes, vulgo Caramuju, era responsável pela guarda de armamentos utilizados pelo PCC.No presídio de Iaras, exercia a liderança Nilson Paulo Alcantara dos Reis, vulto Faísca. Na Penitenciária de Iperó era "piloto" Carlos Magno Zito Alvarenga, o Nego Manga.Vanderson Nilton Paula Lima, vulgo Andinho, embora não seja "piloto" , tinha importante participação no PCC desde de 98. Ele chegou a enviar dinheiro mensalmente para a organização. David Stockler Ulhoa Maluf, vulgo McGyver, é técnico em eletrônica. Foi o responsável pela montagem de artefatos explosivos utilizados em atentados, principalmente no fórum criminal da Barra Funda. McGyver cumpria pena por assaltos. Ele colocava mecanismos explosivos nos corpos das vítimas, geralmente funcionárias de grandes joalherias.Luiz Carlos Galego era responsável pela montagem dos explosivos. Na residência dele foram apreendidos artefatos semelhantes aos utilizados no atentado a bomba no Fórum da Barra Funda.Integrava também a quadrilha o advogado Abrãao Samuel dos Reis, que recebia as determinações recebidas dos "pilotos", levando-as para fora dos presídios. Samuel ocupava-se também da gerência financeira do PCC, e chegou a receber um veículo para revenda e posterior repasse do dinheiro às lideranças. Wilson Heder Cordasso, vulgo Conrado, também integrante do PCC, serviu como intermediário para colocação de explosivos no fórum da Barra Funda. Ele utilizava o mesmo telefone celular usado de Faísca. Ambos estavam presos no presídio de Iaras.Lucien Remy Zahr tinha a função de relações públicas dentro do PCC. Ele redigia manifestos, mantinha contatos com jornalistas e servia também como negociador em rebeliões.Alex Ramos de Oliveira fazia tráfico entorpecentes e remetia parte dos lucros ao PCC. Em seu poder foram apreendidos 17 quilos de cocaína.Para os promotores, a estrutura do PCC foi ?fortemente abalada?, mas não se pode afirmar que a corporação esteja extinta. Para eles, é preciso dar continuidade aos esforços de repressão das facções operantes no sistema prisional. As facções podem apresentar estruturas hierárquicas diferentes, mas continuarão a atuar da mesma maneira.Todos os ?pilotos? foram identificados e isolados em presídio de segurança máxima em Presidente Wenceslau, onde existe bloqueadores de celulares. Vários advogados, cuja função era manter ativa a comunicação das lideranças, mesmo isoladas, foram presos e denunciados. Muitas das ações criminosas foram igualmente esclarecidas. Para os promotores, "é notório o decréscimo da atividade criminosa desse grupo e de sua capacidade operacional".GeleiãoOs promotores juntaram ao processo um vídeo de sete minutos, com declarações de José Marcio Felicio, o Geleião, que foram fundamentais para a desarticulação do PCC. Geleião conta os maus tratos sofreu na penitenciária Bangu 1, onde esteve preso no ano passado. Fala sobre as fortunas acumuladas pelos traficantes nos morros cariocas, que chegam a arrecadar de 180 a 200 mil reais por semana, em cada ponto de venda de entorpecentes. O próprio Geleião, dentro do presídio Bangu 1, tinha uma "salário" de 70 mil reais por mês, para coordenar o tráfico de entorpecentes de dentro da cadeia.

Agencia Estado,

06 de dezembro de 2002 | 13h17

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