Ministério Público denuncia tripulação que jogou camaronês ao mar

Vítima foi resgatada em junho por um navio chileno a 12 quilômetros do litoral paranaense

Julio Cesar Lima - Agência Estado,

13 Agosto 2012 | 18h47

CURITIBA - O Ministério Público Federal (MPF) em Paranaguá, no Paraná, denunciou os 19 tripulantes do navio Seref Kuru, de Malta, por tortura, racismo, e tentativa de homicídio. A tripulação, 17 turcos e dois georgianos, foi acusada de abandonar o camaronês Wilfred Happy Ondobo em alto-mar.

O crime aconteceu em junho deste ano e Ondobo foi resgatado a 12 quilômetros do litoral paranaense pelo navio chileno Marine R. Segundo a Polícia Federal, os tripulantes permanecem sob uma liberdade vigiada em hotéis da cidade e aguardam agora a decisão de um juiz federal que deverá acatar ou não a denúncia.

As situações mais complicadas são as de Orhan Satilmis e Coskun Çavdar, primeiro imediato e comandante respectivamente do navio. Satilmis foi apontado pelo camaronês como autor das agressões físicas e racismo, enquanto Çavdar apenas por tentativa de homicídio e tortura.

Ondobo entrou na embarcação de forma clandestina no Porto de Douala (Camarões). Em seu depoimento, Ondobo afirmou que foi agredido verbal e fisicamente, além de ter sido privado de sono e mantido em uma pequena cabine, antes de ser obrigado a sair do navio, em mar aberto. O homem permaneceu à deriva em um pallet (estrutura de madeira usada no transporte de cargas) por 11 horas.

O camaronês revelou que permaneceu escondido por oito dias em pequenos compartimentos até que sua comida e água acabassem. Em seguida, após ser descoberto, ele alegou que levou chutes, tapas e também foi xingado por ser negro.

Segundo ele, um dos agressores disse que "não gostava de preto" e que para ele "todos são animais". Ao longo da viagem, o clandestino recebia duas refeições diárias e, à noite, alguns tripulantes batiam na porta e na janela para evitar que ele dormisse. Depois de 11 dias no navio, o camaronês recebeu uma lanterna, 150 euros e 30 dólares da tripulação e foi obrigado a deixar o navio.

Ao chegar ao Porto, a tripulação foi convocada para prestar depoimentos e negou conhecer Ondobo. A estratégia, porém, não deu certo e em uma sessão de buscas e apreensões realizadas a pedido do MPF e autorizadas pela Justiça, foram juntados vários elementos que indicaram a presença do camaronês no navio, tais como a descrição detalhada do interior do navio e a localização e apreensão de uma fotografia que a vítima escondeu por trás de uma pia no banheiro para comprovar sua permanência no local.

Um dos pontos principais dos depoimentos dos tripulantes e que pode pesar contra o grupo é, segundo informações da PF, a tentativa de distorcer os fatos. "Ao ser localizada a foto do camaronês ficou evidente que ele esteve no navio, fato negado desde o início pelos acusados", disse a assessoria.

Caso sejam condenados eles podem pegar penas de oito a 34 anos de prisão ou serem enquadrados na Lei de Estrangeiro, e poderiam ser simplesmente expulsos do país. O navio foi liberado para seguir viagem e deixou o Porto de Paranaguá.

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