Ministério Público vê códigos da máfia em ação do ex-chefe

O ex-procurador-geral Bandarra e Deborah Guerner usavam codinomes e títulos religiosos no esquema que incluía Arruda

Leandro Colon e Felipe Recondo, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2010 | 00h00

Seus nomes não são de famílias tradicionais italianas, eles não andam armados, não se valem da tortura ou de assassinatos para obter dinheiro ou vantagens indevidas. Mas os comportamentos de Leonardo Bandarra, que era o procurador-geral de Justiça do Distrito Federal, e da promotora Deborah Guerner, descritos em denúncia do Ministério Público Federal (MPF), fazem lembrar traços da máfia italiana.

Neste caso, quem deveria trabalhar pela aplicação da lei e por coibir a prática de crimes, valeu-se dos conhecimentos adquiridos como investigadores para despistar a Justiça.

Uma das primeiras decisões do grupo integrado por Bandarra e Guerner, para "aumentar o grau de segurança" do esquema, foi a escolha de codinomes para os parceiros. Leonardo Bandarra seria Fernando; Deborah Guerner, a Rapunzel; Durval Barbosa, delator de todo o esquema, era Gabriel; e o então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, era Ricardo. Num segundo momento, conforme o esquema se desenvolvia, os codinomes foram aprimorados.

Os investigados se valeram de títulos religiosos para disfarçar suas atividades. Guerner seria a Missionária; Durval Barbosa, o Pastor; e a residência da promotora, onde as reuniões secretas do grupo ocorriam, era a Igreja. A religião parecia o assunto das mensagens trocadas entre Guerner e Durval Barbosa, a Missionária e o Pastor, respectivamente.

"Missionária, a bíblia foi, está completa. Foi entregue na sua casa hoje, ao meio, agora estou querendo as fervorosas orações. Não estou recebendo os livramentos", dizia Barbosa em mensagem enviada para o celular de Guerner em 30 de setembro de 2008. "Tem algum trabalho bíblico que eu não esteja sabendo? Tem movimentação dos diáconos com medo dos castigos do Senhor. Busque a verdade pregada", conclamava em outra mensagem. Mas as mensagens que pareciam de um fiel atormentado na verdade tratavam, conforme o MP, do pagamento de propina a Bandarra pelo vazamento de informações sigilosas de investigações.

Com o novo batismo de cada um dos integrantes do grupo, outras providências meticulosas foram adotadas. Chefe do Ministério Público do DF, Bandarra era o mais cuidadoso. Para não ser reconhecido, ele ia de moto à casa de Deborah Guerner e só tirava o capacete quando já estava dentro da residência.

Assim, ninguém que passasse pela rua no momento de sua chegada saberia que aquele motoqueiro vestido com roupa de passeio era o chefe do MP do DF. Na saída das reuniões, adotava o mesmo procedimento. Antes da porta se abrir, colocava o capacete.

Bloqueador ilegal. Dentro da casa, o grupo usava um bloqueador de sinal de celulares para evitar grampos. O aparelho, cuja utilização é ilegal e foi apreendido, não merecia a confiança em Bandarra. Para evitar qualquer surpresa, ele desligava o celular e tirava a bateria do aparelho. Mesmo depois de tantos cuidados, Bandarra não se sentia a vontade para conversar livremente com Deborah Guerner, até porque o sistema de câmeras de dentro da casa poderia captar qualquer negociação. Por isso, os dois sussurravam ao pé do ouvido.

Quando o assunto era mais espinhoso, especialmente se envolvia dinheiro, a conversa mudava de lugar. Deborah Guerner levava o interlocutor do grupo com o governo Arruda, Durval Barbosa, para dentro da sauna de sua casa. Assim, evitaria uma escuta ambiental. Mesmo assim, ela não falava expressamente de valores. Para passar sua mensagem, escrevia em um pedaço de papel os valores que deveriam ser pagos por Durval Barbosa pelos serviços prestados pelo Ministério Público a ele a título de "blindagem geral", como definia o chefe do MP, conforme as investigações.

Silêncio. Apesar da orquestração, uma regra sagrada não foi respeitada: o código do silêncio. Durval Barbosa já estava infiltrado pela polícia, delatando todo o esquema ao Ministério Público.

Deborah Guerner, assim que se sentiu ameaçada, mandou um e-mail para o chefe, Bandarra, colocando-o contra a parede. "Dessa vez não vou ficar calada, aguentando tudo sozinha como ÍMPROBA para não macular a sua HONRADA pessoa", escreveu ela em e-mail transcrito na denúncia. A máfia italiana não perdoaria um deslize desses.

 

 

 

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