Ministro atribui crise a loteamento político da direção da Conab

Para Rossi, divisão de cargos entre partidos cria disputas e ''talvez tenha faltado atenção [br]em algumas coisas''

Eugênia Lopes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2011 | 00h00

O ministro da Agricultura, Wagner Rossi, reconheceu ontem que a crise no setor é fruto do loteamento político da pasta. Ao se eximir de envolvimento nas denúncias de corrupção, o peemedebista admitiu que o fato de as diretorias da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) serem ocupadas por apadrinhados políticos de diferentes partidos é um foco de tensão.

"Há sempre uma concorrência natural por espaço. A Conab tem diretores de vários partidos e isso tem gerado problemas. Hoje, sinto que há uma certa dificuldade de entendimento entre os diretores", argumentou Rossi. As diretorias da Conab são hoje ocupadas por indicados políticos do PMDB, do PTB e do PT. Ao rebater as denúncias de corrupção, Rossi reconheceu: "Talvez tivéssemos faltado com a atenção em algumas coisas". "Eu não consigo cuidar de tudo", justificou.

Segundo o ministro, as disputas entre grupos rivais dentro da Agricultura e da Conab, somadas à "mentalidade corporativista de algumas pessoas", podem ter desencadeado as denúncias contra a pasta. "Quem conhece a administração pública sabe que, às vezes, você muda a equipe, e a equipe anterior e a atual se hostilizam por baixo do pano."

A crise na Agricultura ficou mais grave depois que a revista Veja revelou que o lobista Júlio Fróes teria uma gravação em que Milton Ortolan, então secretário executivo do ministério, exigia propina de 10% sobre contrato firmado com a pasta. Ontem, Rossi afirmou não conhecer Fróes. Na semana passada, a Agricultura já tinha sido alvo de denúncias feitas por Oscar Jucá Neto, irmão do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), que disse existir um esquema de desvio de recursos na Conab e no ministério.

Indicado para o cargo pelo vice-presidente Michel Temer, Rossi garantiu que "a presidente Dilma tem dado todos os motivos para que eu me sinta firme e confortável e que meu trabalho está sendo avaliado adequadamente". Até as 20 horas de ontem, o ministro não havia se encontrado nem conversado com Dilma. Seu contato foi só com a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann.

Sindicância. Ao se defender, Rossi descredenciou a reportagem de Veja, ao dizer que "deram voz a algumas pessoas que deveriam ter sido mais bem avaliadas". Munido de papéis que afirmava serem documentos, Rossi rebateu uma denúncia por vez e anunciou a criação de comissão de sindicância para apurar as supostas irregularidades na pasta. A comissão será presidida pelo coordenador adjunto da Advocacia-Geral da União (AGU), Hélio Saraiva Franca. Segundo o ministro, todos os servidores citados pela reportagem serão ouvidos.

Amigo há mais de duas décadas de Ortolan, Rossi informou que ainda não escolheu um substituto para a secretaria executiva. O ministro revelou que tentou convencer Ortolan a se licenciar do cargo durante a investigação das denúncias, mas, segundo Rossi, o ex-secretário "se sentiu insultado pelo tipo de situação e pediu demissão em caráter irrevogável".

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