Ministro da Defesa acerta termos de renovação da Anac

Nelson Jobim não abre mão de trocar toda a diretoria da agência, assim como ocorreu com a Infraero

Christiane Samarco, do Estadão,

30 Agosto 2007 | 20h37

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, já acertou os termos da renovação completa da Agência Nacional da Aviação Civil com os três, dos cinco diretores da Anac, que ainda resistem em seus cargos. Um interlocutor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva conta que o acordo foi fechado na quarta-feira, 29, em reunião no Palácio do Planalto, da qual participaram Jobim, o ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, e o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). O diretor de Relações Internacionais, Estudos e Pesquisas, Josef Barat, só não entregou sua carta de demissão na quarta-feira porque Jobim pediu a ele que aguardasse até o dia 7 de setembro, prazo com que o ministro trabalha para substituir Denise Abreu e Jorge Luiz Velozo. Os dois cederam à pressão do próprio governo e entregaram seus cargos na última semana.  O ministro da Defesa não abre mão de trocar toda a diretoria da Anac, assim como ocorreu com a Infraero, e tem pressa em fazê-lo. Mas não sem antes encontrar os substitutos de Denise Abreu e Velozo. A cautela de Jobim tem o objetivo de não paralisar a Agência, que não pode funcionar com menos de três diretores. "Se um terceiro diretor também sair, a Anac fica acéfala, e um órgão que tem a missão de regular e fiscalizar o setor aéreo não pode parar", explica o interlocutor de Lula que acompanha cada passo deste acerto. Em sua passagem pela CPI da Crise Aérea na Câmara, na última terça-feira, Jobim admitiu dificuldades em encontrar nomes para compor a diretoria da Anac. "Não é fácil conseguirmos as reposições. Antes, todo mundo queria, mas agora ninguém quer entrar (na Agência)", afirmou o ministro, ao destacar que é preciso encontrar perfis afinados com o setor. "Temos que ter alguém que entenda de regulação e fiscalização. Alguém que entenda de transporte aéreo. E alguém que entenda de mercado, um economista. Aí consegue consolidar o sistema", analisou. Além Barat, o diretor de Infra-Estrutura Aeroportuária, Leur Antônio Britto Lomanto, já comunicou a Jobim que está disposto a deixar o cargo sem criar dificuldades nem constrangimentos ao governo ou ao ministro. Mas seu destino não será desprezado pelo governo. Foi o que ficou acertado entre o líder peemedebista e o ministro Walfrido no Planalto. Segundo um dirigente peemedebista, o líder deixou claro que "Leur não pode sair da Anac como culpado ou responsável pela crise". Henrique Alves também frisou que o PMDB tem compromisso com Leur e está solidário com ele. Além da saída honrosa que não desgaste a imagem pessoal e política do peemedebista, o entendimento inclui "acomodá-lo" mais adiante, seja em algum posto federal ou na Bahia, onde o vice do governador petista Jaques Wagner e três secretários de Estado são do PMDB. Um amigo de Jobim, que julga conhecer bem a "firmeza e os propósitos" dele, afirma que a demissão do presidente da Anac, Milton Zuanazzi, foi definida no momento em que o diretor confrontou com o ministro e fincou o pé no cargo. "Desde então ficou claro que Jobim não descansaria enquanto não se livrasse de toda a diretoria", diz o amigo do ministro. A partir daí, prossegue a fonte, a estratégia foi forçar a saída de um a um, para que ao final reste apenas Zuanazzi. Como Leur Lomanto e Barat já comunicaram a disposição de sair, este objetivo já foi alcançado. "O entendimento do Planalto é de que, certo ou errado, justo ou não, a Anac virou um problema para o governo porque é emblemática da crise ", argumenta um interlocutor do presidente Lula. Mas Zuanazzi, que é afilhado político do ministro Walfrido, também não será "despejado" da Anac a qualquer custo. Assim como Leur Lomanto, ele deverá ser "acomodado" em outro posto, possivelmente no Rio Grande do Sul. Entendimentos à parte, a negociação da saída de Leur, que por 20 anos foi deputado pelo PMDB baiano e companheiro de Jobim na Câmara, gerou estresse na relação entre o partido e o ministro. Correligionários do diretor, que elegeu um filho deputado estadual pelo PMDB no ano passado, tomaram as dores de Leur e cobraram a falta de uma "conversa franca" e o excesso de autoritarismo do ministro no episódio. "A questão é o método. Seria mais fácil chamar, conversar e pedir o cargo", protestou um importante dirigente do PMDB. Foi neste contexto que o ministro Mares Guia chamou o líder Henrique Alves ao Planalto. A idéia era acalmar os ânimos, já que o clima em setores do partido era de crítica "à condução autoritária do ministro", em se tratando de um ex-colega de Câmara. Jobim vestiu a carapuça. Tanto é assim que, na reunião ministerial de ontem, o ministro da Defesa mostrou-se preocupado em justificar seu estilo, quando fez uma breve exposição sobre a crise aérea. Três frases dele, anotadas por um dos presentes, chegaram a provocar risos e piadas. Em meio à sua fala, o ministro admitiu: "Fui autoritário, tive que ser autoritário, e tive que fingir autoritarismo". Explicou em seguida que precisou portar-se assim porque era preciso dissipar a idéia da falta de comando no setor aéreo.

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