Ministro sobe morro e pede desculpa

Governo entende que é necessário manter tropas na Providência, mas deve negociar com líderes comunitários

Alexandre Rodrigues, RIO, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2008 | 00h00

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, visitou ontem o Morro da Providência e cobrou da tropa que se instalou na comunidade que se esforce para superar a crise provocada pela morte de três jovens entregues por 11 militares a traficantes do Morro da Mineira, no fim de semana. Os corpos foram achados posteriormente em um aterro sanitário. O ministro ainda se reuniu com parentes das vítimas e pediu desculpas pelo ocorrido. O Palácio do Planalto, o Ministério da Defesa e o Comando do Exército entendem que, para o prosseguimento das obras, é preciso proteção militar, uma vez que a área é disputada por várias facções criminosas. Mas o governo vai negociar pessoalmente com os líderes locais todo o processo. Jobim deve reunir-se hoje com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir o futuro da operação.Para o ministro, somente a satisfação dos moradores com a conclusão do Projeto Cimento Social , que reforma telhados e fachadas de casas, poderá superar "um ato repudiável". "As obras têm de continuar." Já os operários ameaçam paralisar os trabalhos amanhã, se os militares permanecerem. Jobim falou a 250 homens na sede do Comando Militar do Leste (CML) no Rio e afirmou que os moradores, que enfrentaram militares anteontem, têm razão. "Há de se ter a tolerância e a compreensão de que algumas pessoas foram atingidas no reduto mais importante, que é a vida dos irmãos. Vocês precisam compreender que essas pessoas têm razão no extravasamento do seu ódio, da sua angústia. Vocês precisam ter a altivez que tem o Exército para compreender, aceitar e verificar que não é uma agressão pessoal, mas o transbordamento de uma angústia decorrente de uma ação praticada por um de vocês." Jobim desembarcou no Rio depois de se reunir, pela manhã, Lula. Na sede do CML, ele conversou por mais de três horas com o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri. Por volta das 16 horas, um comboio escoltado por jipes militares levou Jobim e Peri até a Providência, onde as ruas de acesso foram tomadas por soldados. De cima de uma laje, uma criança gritava a palavra "assassinos". No entanto, o ministro foi bem-recebido. Sueli Moreira, tia de um dos mortos, chegou a oferecer um cafezinho ao ministro. Jobim disse a ela que os culpados serão punidos e prometeu acompanhar o processo. Mais cedo, duas mães e uma avó dos três jovens do Morro da Providência ouviram, olho no olho, o pedido de desculpas do general Mauro César Lorena Cid, comandante da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, unidade onde serviam os militares que entregaram seus parentes a traficantes do Morro da Mineira - onde foram torturados, mutilados e mortos. "Gostaria em nome do Exército de pedir desculpas pelo ocorrido. Peço perdão às mães pela tragédia. Lamentamos o fato e quero ressaltar que os culpados já estão presos", ressaltou.Elas acompanharam tudo em silêncio. Depois, foram para o Ministério Público Estadual (MPE), acompanhadas de dois advogados, para formalizar a denúncia de crime contra a União. À tarde, depois de falar à tropa no quartel, no fim da tarde, Jobim voltou à Providência, onde se reuniu com parentes das vítimas. Chegou aos gritos de "justiça" e saiu aos berros de "Fora, Exército!" COLABORARAM PEDRO DANTAS e TÂNIA MONTEIRO

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