Sarah Silbiger/Reuters
Sarah Silbiger/Reuters

‘Minoria da minoria’, o primeiro afro-americano já é nome forte no cardinalato

Wilton Daniel Gregory, arcebispo de Washington, sintetiza valores muito caros ao pontificado de Francisco

Edison Veiga, especial para o Estadão

01 de novembro de 2020 | 05h00

Dentre os novos anunciados por Francisco para compor o cardinalato, as vozes baixas dos corredores do Vaticano já elegeram o norte-americano Wilton Daniel Gregory, arcebispo de Washington, como o nome mais forte. Aos 72 anos, o primeiro cardeal norte-americano negro da história sintetiza valores muito caros ao pontificado de Francisco. Ao mesmo tempo, ele está no centro de movimentos importantes do mundo contemporâneo.

“É uma mensagem muito clara não apenas no contexto do Black Lives Matter, mas em um momento em que o país norte-americano está profundamente dividido pelo racismo, polarização e radicalização do discurso público”, afirma a vaticanista argentina Inés San Martín, diretora do escritório romano da Crux Catholic Media.

Nascido em Chicago, filho de pais divorciados, Gregory decidiu se tornar padre aos 11 anos, antes mesmo de ter se convertido ao catolicismo. Foi ordenado em 1973, doutorou-se em Liturgia Sagrada em Roma e tornou-se bispo em 1983. Ao longo de seu episcopado, ficou conhecido pela postura de acolhimento a católicos LGBT e pela defesa da importância de uma maior representatividade dos negros na Igreja dos Estados Unidos. O religioso é enfático no discurso antiarmamentista. Em pelo menos duas ocasiões, criticou publicamente o presidente Donald Trump. 

Em meio aos atuais movimentos antirracistas, sua voz se ergue em defesa dos negros norte-americanos. Entre 2001 e 2004, Gregory presidiu a conferência episcopal norte-americana (USCCB, na sigla em inglês). Nessa época, conduziu uma política de tolerância zero frente a casos de abusos sexuais do clero. Em 2019, quando a Arquidiocese de Washington estava no epicentro de escândalos sexuais, ele foi nomeado pelo papa Francisco para assumir o posto e recuperar a confiança dos fiéis. A partir daí, já se ventilava que Gregory estava cotado para receber o barrete cardinalício. 

Pesquisadora de História do Catolicismo na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, a vaticanista Mirticeli Medeiros concorda que Francisco “só esperava o momento certo para fazê-lo” cardeal. “E o clamor popular, os protestos, o debate em torno do tema talvez o tenham motivado a lançar, de uma vez, essa nomeação”, comenta ela. 

“Parece ser uma pessoa moderada. Fala pouco mas, quando fala, fala forte”, pontua o vaticanista Filipe Domingues, da Universidade Gregoriana de Roma. “Por ser um negro nos Estados Unidos, onde os negros católicos são a minoria da minoria, ele traz uma bagagem que não estava representada no colégio cardinalício.”

Para o teólogo e filósofo Fernando Altemeyer Junior, da PUC de São Paulo, a nomeação de Gregory mostra que “a Igreja segue seu caminho sem submeter-se aos imperialismos ou decisões dos grandes detentores do poder mundial”. Os cardeais, acrescenta, “são escolhidos sintonizados com o projeto de uma Igreja missionária e próxima dos povos”. “São novos horizontes de sentido, um novo modo de ser bispo e ser cardeal.”

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