Missa no Rio lembra Alana, menina morta por bala perdida

Edna Ezequiel, de 31 anos, entrou amparada na Igreja da Candelária para a missa de sétimo dia de sua filha Alana, de 12 anos, morta por uma bala perdida durante um tiroteio entre policiais e traficantes no morro dos Macacos, em Vila Isabel, na zona norte do Rio. Os últimos dias estão sendo duros para a empregada doméstica que, além da perda, sente-se pressionada por policiais e traficantes por conta do inquérito que apura quem efetuou o disparo."Não consigo comer, dormir, sair e nem ficar dentro de casa, porque tudo tem a cara dela", disse Edna ao final da cerimônia na qual estavam presentes parentes e amigos de outras vítimas da violência na cidade como os pais do menino João Hélio Fernandes, a mãe da desaparecida Priscila Belfort e Tico Santa Cruz, vocalista da banda Detonautas, cujo guitarrista, Rodrigo Netto, foi assassinado em uma tentativa de assalto no ano passado.A situação da doméstica preocupa até mães de vítimas da violência que moram em outras favelas do Rio. "Ela mora na parte mais pobre e alta do morro. Quase não come. Toma muito café e fuma sem parar. Não consegue ir trabalhar e não conta mais com o marido. A filha mais nova está com febre e chama pela irmã. Ela não acusa ninguém, mas está com medo das reações. A situação no morro é tensa", disse uma amiga que preferiu não se identificar.A missa reuniu pouco mais de 100 pessoas. Temerosa pela a reação dos traficantes na favela, a Associação de Moradores do Morro dos Macacos recuou e não disponibilizou o ônibus para que os parentes e amigos comparecessem a cerimônia. A presença de Edna também era dúvida entre as organizadoras até pouco antes o início da missa que atrasou meia hora.Oficialmente, as organizadoras atribuíram o pouco público à falta de mobilização da sociedade. "Quem deveria fazer mudanças, não faz por falta de vontade política, mas a sociedade também não se mobiliza para que as coisas mudem", lamentou a Cleyde Prado, mãe da adolescente Gabriela, morta aos 14 anos durante um tiroteio entre policiais e traficantes em uma estação de metrô da Tijuca, na zona norte, em 2003. "Infelizmente, Edna, você agora é uma de nós", disse durante a homilia da missa a psicóloga Regina Célia Maia, mãe de Marco Antônio Maia, assassinado por policiais no morro do Salgueiro, em 1995. Policiais mortosA cerimônia, que também homenageou os seis policiais mortos em ação desde a última sexta-feira, contou com a presença do secretário de Segurança Pública do Rio, José Marino Beltrano, do comandante da Polícia Militar Ubiratan Ângelo e do chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro.A cúpula da Segurança Pública fez fila para abraçar a mãe de Alana e ouviu o discurso do vocalista Tico Santa Cruz que pediu medidas preventivas contra a violência. "A paz não é uma palavra mágica, mas o reflexo de um conjunto de medidas tomadas pelo governo e pela sociedade. Enquanto não houver justiça social, não haverá paz", disse o músico. Encontro com a mãe de João HélioO momento mais emocionante aconteceu após o término da cerimônia quando a comerciante Rosa Cristina Fernandes, de 41 anos, mãe de João Hélio morto em fevereiro arrastado no asfalto por sete quilômetros preso ao cinto de segurança por bandidos que roubaram o carro dela, abraçou e acariciou o rosto da empregada doméstica.As mães das vítimas da violência entregaram às autoridades um documento intitulado "Agenda Positiva 2007 - O Rio do bem" com propostas de ações sociais para as áreas de segurança pública e educação.Entre outras medidas, o documento destaca as sugestão de revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente, mudanças nos institutos para a reabilitação de menores e parceira com a iniciativa privada para cursos de capacitação profissional para que o ensino público seja em tempo integral.Na última semana, balas perdidas mataram quatro pessoas no Rio, entre elas duas crianças. Só no domingo, 11, foram dois mortos. Vanessa Calixto de Santos, de 24 anos, que estava internada no Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, desde sexta-feira, 9, morreu pela manhã, e no fim do dia, Luiz Cláudio do Nascimento foi baleado quando estava dentro de um ônibus em Duque de Caxias. Texto atualizado às 18h45

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