Missionário brasileiro temia por sua vida em Timor

O missionário evangélico brasileiro Aurélio Edgard Brito, de 32 anos, morreu no sábado, 18, em Díli, capital de Timor Leste, atingido por três tiros. Edgard, que vivia no Timor havia cerca de três anos, estava com a irmã, a também missionária Elisama. Eles voltavam de um culto, de carro, junto com timorenses por volta das 18 horas (hora local) quando Edgard foi atingido por três balas, uma das quais no pescoço.Tudo indica que os brasileiros não eram alvos do tiroteio, já que eles passaram por um local onde havia um conflito entre timorenses. Por conta dos conflitos entre os moradores locais, Edgard afirmou que estava com medo de continuar em Timor Leste, mas apesar disso, estava "com pessoas que pensam o tempo inteiro em servir ao próximo, o que me motiva a continuar aqui e ajudar de alguma forma".Edgard, o único a ser atingido, morreu logo depois. A irmã, Elisama, e os timorenses que os acompanhavam levaram Edgard até o Hospital Geral Guido Valladares, quase em frente ao local onde ele foi atingido, mas o hospital estava fechado.Edgard foi levado até a clínica de Daniel Murphy, um médico americano que trabalha com voluntário no Timor desde 1998, mas não havia nada mais a ser feito. A clínica de Murphy, a maior de todo Timor, que atende em média 400 pacientes por dia, quase não dispõe de equipamentos.Aurélio Edgard Gonçalves de Brito, 32 anos, era originário de Belo Horizonte. Ele e a irmã faziam um trabalho social e humanitário junto à população carente de Timor. Nos últimos meses ele conseguiu um transplante de córnea para um jovem timorense, Loi, que sem essa intervenção teria ficado cego. A cirurgia estava para ser realizada em Darwin, na Austrália.Depoimento do missionário mineiroEdgard é único brasileiro a morrer em Timor Leste e o primeiro estrangeiro desde abril, quando se iniciou a crise político-militar no país. A casa de Edgard já tinha sido atacada no dia 26 de maio e sua moto, roubada. Na ocasião, ele fez o seguinte relato na lista de discussão e para o site Crocodilo Voador:"No dia 26, quando tentaram entrar em minha casa, eu pensei que não sairia daqui vivo. Eu sentei em uma cadeira e fiquei olhando para a porta, esperando o momento que quem estava tentando arrombar a porta conseguiria entrar. Não tinha nada a ser feito, eu não poderia ligar para ninguém. Quem seria louco de entrar no meio de um conflito de gangues para salvar um amigo? Quando meu telefone tocou, eu nem esperei a pessoa do outro lado falar o que queria, contei tudo que estava acontecendo e ouvi a Anabel (outra missionária evangélica) falando para eu ficar calmo que ela iria ligar para o embaixador. O mais estranho de tudo é que a Elisama tinha esquecido o telefone em casa e a Anabel fez uma ligação errada para o telefone da Elisama, que por ela ter esquecido, estava comigo. Minutos depois, a Anabel me retornou falando que a embaixada não poderia me ajudar, pois não tinha mais policiamento na cidade, mas que se eu tivesse coragem de sair de dentro de casa, ela viria me buscar."Desde o início da crise, o número oficial de mortos é próximo de 50. Cerca de 2 mil casas foram incendiadas e, no pior momento, 160 mil pessoas abandonaram seus lares para se refugiar em escolas, igrejas e até praças. Edgard vinha trabalhando, com outros missionários brasileiros, junto a esses refugiados.Em um e-mail enviado a esta jornalista, o missionário confessou: "Nesses dias eu tenho sentido medo. Determinadas circunstâncias me assustam, mas estou com pessoas que pensam o tempo inteiro em servir ao próximo, o que me motiva a continuar aqui e ajudar de alguma forma."A pequena comunidade brasileira de Díli está consternada e em estado de choque. A população brasileira em Timor costumava ser de cerca de 200 pessoas, número que foi reduzido com a saída do Exército Brasileiro - um contingente fixo de 50 militares - em 2004. A maior parte é constituída de missionários, católicos e evangélicos. Estes últimos representam a maioria, com cerca de 50 pessoas, conforme a época.Rosely Forganes, correspondente da Radio Eldorado de São Paulo, esteve em Timor Leste nove vezes desde 1999, quando entrou no território ocupado pelos indonésios desde 1975. Entrou no país junto com as tropas internacionais, como correspondente de guerra. O trabalho em Timor valeu à jornalista o Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos em 2001 e a Ordem do Mérito Militar, a mais alta condecoração militar do Brasil. A jornalista publicou um livro que retrata o trabalho dos missionários brasileiros no país: "Queimado Queimado, mas Agora Nosso - Timor, das cinzas à liberdade", editora Labortexto.

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