Luiz Soares
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Modelo ganha concurso de miss após passar por transplante e vencer câncer

Com o diagnóstico de linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer de sangue raro, já em estado grave, Lorena Arianne Soares pensou que não teria mais tempo para os sonhos. Felizmente, estava errada

Jessica Brasil Skroch, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2021 | 05h00

Lorena Arianne Soares sempre quis trabalhar como modelo, mas esse sonho era deixado para depois. “Primeiro eu me formo”, pensava ela, que cursou Direito. Seis meses antes da formatura, aos 24 anos, veio a notícia inesperada: o diagnóstico de linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer de sangue raro, já em estado grave. Pensou então que não teria mais tempo para os sonhos. Felizmente, estava errada.

Em novembro, Lorena foi coroada no Miss Brasil Internacional, um concurso nacional de modelos em Vitória, sem ligação com o tradicional Miss Brasil. “Foi o tempo que eu perdi para ganhar o resto da vida”, afirma.

Os primeiros sinais da doença surgiram em 2017, com uma coceira intensa no corpo. Lorena procurou dermatologistas e outros médicos e fez tratamentos com antialérgicos. Nada dava resultado. Com o tempo, outros sintomas surgiram, como a sudorese noturna e a dificuldade para respirar causada pelo linfoma no mediastino, entre os dois pulmões.

Em abril do ano seguinte, ela começou a ter uma dor muito forte no peito e tosse, o que imaginou ser crise de uma bronquite que já tinha. A dor piorou, e a jovem foi ao pronto-atendimento. Após uma tomografia com contraste, o médico que a atendeu disse à mãe de Lorena que ela poderia estar com câncer, e o seu estado era crítico. Naquele mesmo momento, ela foi internada.

“Aos 24 anos, a gente não espera que isso aconteça.” Na madrugada do dia seguinte, Lorena foi transferida para a UTI em Belo Horizonte, onde ficou 21 dias. No dia da biópsia, a jovem foi entubada. Quando acordou, contaram que ela quase teve parada cardíaca. O resultado do exame foi o linfoma, em estado avançado, com metástase nos dois pulmões. Lorena foi transferida para outro hospital para começar o tratamento com a primeira quimioterapia.

Após sair da UTI, seguiu com a quimioterapia a cada 21 dias, e a vida parecia se estabilizar de novo. Porém, foi internada outra vez por causa de uma embolia pulmonar, decorrente da doença. Além disso, o câncer não respondia mais ao tratamento, que precisou ser alterado. Ao fim desse novo protocolo, seria necessário um transplante de medula óssea.

Após dois ciclos de quimioterapia do novo tratamento, o câncer estava em remissão completa. Ainda que estivesse em estado avançado, a medula não tinha sido atingida, o que possibilitou o transplante. Em 21 de janeiro de 2019, dia da cirurgia, um novo percurso difícil se iniciou em sua vida.

“Eu tive infecção generalizada pelo meu cateter, com três bactérias e sem medula, porque a minha não tinha ‘pegado’ ainda. Meu organismo estava sem defesa nenhuma”, relata. Lorena foi para a UTI mais uma vez. Os antibióticos, porém, fizeram efeito e, em menos de 12 horas, ela saiu da UTI para o quarto.

Após 13 dias do transplante, a medula “pegou”. Era o começo do fim da sua jornada contra o câncer.

Concurso

Quando Lorena já estava liberada para voltar a trabalhar, começou a ser notada por meio do Instagram e a atuar como modelo. “Ganhei muitos seguidores por causa do tratamento, o que trouxe visibilidade. Muitas marcas entraram em contato comigo, e eu comecei a investir nisso de forma mais profissional”, conta. Hoje, ela já tem cerca de 64 mil seguidores na rede social.

Ao ser chamada para ser modelo de maquiagem, a jovem se sentia insegura por ainda usar peruca. Em algumas vezes, pediram para que tirasse fotos com seu cabelo natural. Ela aceitou fazer, mas teve resistência em divulgá-las. Depois de uns seis meses, Lorena publicou as fotos em seu perfil no Instagram e hoje vê as imagens com muito carinho. “São o sinônimo da minha vitória”, escreve na legenda.

Neste ano, Lorena foi convidada para participar do concurso Miss Brasil Internacional. Ela conta que, inicialmente, pensava ser um sonho inalcançável, pois, na maioria dos concursos, a idade limite é 26 anos, e ela estava com 28, mas só a chance de poder participar já era a realização de um sonho. “Não era nem por ganhar, era estar ali depois de tudo que eu passei”, explica a modelo que sentiu felicidade em dobro: por estar viva e poder fazer o que mais desejava.

Lorena diz sentir que renasceu depois de quase perder a vida. Hoje vê que as dificuldades de antes têm menos importância. “Parece que desde que eu saí daquela situação, eu vivo cada dia na minha vida intensamente. Eu não deixo muita coisa para amanhã.”

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