Modo de agir define o risco de ser roubado

?É um crime relacionado à oportunidade?, ressalta especialista

BRUNO PAES MANSO, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2009 | 00h00

O advogado coreano Augusto Kwon chegou ao Brasil com 15 anos, no começo dos anos 70. Teve tempo suficiente para conhecer a criatividade dos ladrões brasileiros. Nos últimos anos, foi assaltado pelo menos oito vezes em cruzamentos da capital paulista. Além do tradicional revólver, já foi abordado por ladrões que usavam seringa com sangue supostamente contaminado, pedras e até buquês de flores (para disfarçar as armas). "Acho que os orientais se tornam alvos porque são vistos como pessoas mais passivas, que não reagem, além de serem mais baixinhos", diz Kwon, que trabalha na região central do Bom Retiro.No extremo da cidade, a representante de vendas Fabiana Cristina da Silva, a teleoperadora Kellen Cristina Leite e a atendente Eliana de Souza das Neves, evangélicas, que vivem em conjuntos habitacionais de Cidade Tiradentes, na zona leste, nunca foram assaltadas na vida. "Os evangélicos não vão a baladas, frequentam ambientes familiares, com amigos da igreja. Acho que por isso somos menos visados", diz Fabiana.Além da renda, a pesquisa de vitimização mostra que o comportamento pode ser determinante no aumento do risco de ser assaltado. O grupo que frequenta bares e casas noturnas tem probabilidade de 13,5% de ser assaltado, índice que cai para 9,1% entre aqueles que vão a cinemas, teatros, bingos e atividades de lazer não necessariamente noturnas. Aqueles que não saem de casa para se divertir veem suas chances de serem assaltados caírem para 2,3%. "O roubo é um tipo de crime relacionado à oportunidade. Certamente uma pessoa que sai mais acaba se tornando mais vulnerável", afirma o professor Naércio Aquino Menezes Filho, do Insper.A etnia, no entanto, também tem peso significativo. Pessoas de origem oriental são as mais abordadas por ladrões, com probabilidade de 15,6% de serem assaltadas. Os brancos veem em segundo (11,4%), seguidos de perto pelos pardos (10%). Os negros (6%) e os indígenas (4,3%) estão entre os menos vulneráveis.Nos últimos dois anos, o presidente da Associação Brasileira dos Coreanos, Dong Park, viu os assaltos aumentarem no Bom Retiro. A principal diferença, segundo afirma, é que agora os criminosos chegam com informações precisas a respeito do comportamento da vítima. Nas duas últimas semanas, foram dois arrastões a prédios no bairro frequentado por comerciantes. Os ladrões chegam ao amanhecer ou ao entardecer, dominam os coreanos e fazem uma limpeza geral. "Como trabalhamos com comércio e somos imigrantes, eles buscam dinheiro vivo. Muitas vezes, as vítimas da colônia não vão à polícia. Estamos tentando conscientizá-los a denunciar para que haja uma resposta mais eficiente das autoridades."Em Cidade Tiradentes, Kellen Cristina, de 31 anos, batista há 7, apesar de nunca ter sido assaltada, acabou testemunhando problemas relacionados à violência, em um dos bairros que nos anos 90 esteve entre os primeiros no ranking de homicídios na cidade. Nesse período, ela perdeu pelo menos sete amigos assassinados, colegas da escola, normalmente envolvidos com problemas relacionados às drogas. Se o crime contra o patrimônio atinge preferencialmente os ricos, o crime contra a pessoa tem o pobre como a vítima principal.

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