Moinho da Mooca será museu ferroviário

Local vai abrigar vagões usados por autoridades e marias-fumaças

Sérgio Duran e Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2026 | 00h00

O antigo Moinho Gamba, na Mooca, zona leste de São Paulo, será desapropriado para dar lugar a um museu sobre a história ferroviária do Estado. Segundo o secretário da Cultura, João Sayad, há vagões usados por autoridades e marias-fumaça, além de documentos históricos importantes, prontos para ocupar espaço no imóvel, de paredes de tijolo aparente.''''Há muita coisa para instalar lá. Será um museu importante. Há vagões do fim do século retrasado e muita coisa da antiga Rede Ferroviária. Enfim, muita história para contar e mostrar'''', afirma Sayad. O secretário já pensa em fazer um roteiro cultural com outros galpões industriais, como o da São Paulo Railway e o da Matarazzo.Atualmente, o Gamba - conhecido na Mooca como Moinho Santo Antônio - é um espaço para shows e eventos. No passado, era o único concorrente do conde Francisco Matarazzo no armazenamento e distribuição de alimentos e de outros produtos. Outros galpões compõem um conjunto arquitetônico, que, segundo especialistas, teve papel fundamental na ocupação da capital.As historiadoras Manoela Rufinoni e Cristina Meneguello, respectivamente da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e os arquitetos Giancarlo Bertini e Fernanda Valentin são os autores de um dos estudos que levaram o Conpresp a decidir pelo tombamento da região. No trabalho, eles escrevem que a região ditou a lógica futura da cidade.Foram os quatro também que se mobilizaram para denunciar a demolição que alguns dos galpões, como o da antiga fábrica de alimentos Duchen. A maioria trazia placas anunciando lançamentos imobiliários.No dia 15 do mês passado, um grupo de cem moradores fez um abraço simbólico ao Gamba, em protesto contra as demolições. Secretária da Comissão de Políticas Urbanas da Distrital Mooca da Associação Comercial, Elisabeth Florido disse ter ouvido do próprio governador José Serra a promessa de que a área seria preservada. ''''Se ocorrer a desapropriação para concretizar um projeto de produção cultural, sou favorável'''', disse Elisabeth.EMPREENDIMENTOA desapropriação põe fim ao projeto da construtora Quality para o terreno do Gamba, adquirido há mais de dois anos. A empresa pertence a um tradicional investidor do setor, Pedro Yunes. Ele previa a construção de quatro torres residenciais, de 20 andares cada uma, ao redor do prédio antigo do moinho. O imóvel seria restaurado para compor uma praça, a ser entregue à administração municipal. O projeto ficou parado no Conpresp à espera de aprovação por dois anos.A Quality alega que quando comprou o terreno do Moinho Gamba o imóvel não era tombado. Yunes disse ao Estado que, antes de definir o projeto, solicitou parecer de um especialista em patrimônio histórico. Este informou que apenas o prédio principal do Gamba tinha valor. Antes de saber da decisão de Sayad, o advogado de Yunes, Marcelo Terra, afirmou que processaria o Conpresp, órgão municipal de conservação do patrimônio, pelos danos materiais impostos à construtora.

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