''Monstro de Rio Claro'' vai a júri popular por morte de 2 crianças

Ossadas foram achadas dez anos depois, em 2000; andarilho foi condenado em três casos

Tatiana Fávaro, O Estadao de S.Paulo

16 Outubro 2008 | 00h00

O Tribunal do Júri de Rio Claro, a 175 quilômetros de São Paulo, levará a julgamento hoje o andarilho Laerte Patrocínio Orpinelli, de 56 anos, conhecido como o "Monstro de Rio Claro". Orpinelli será julgado pelo assassinato de José Fernando de Oliveira, de 9 anos, e Osmarina Barbosa, de 10, mortos em 1990. As ossadas foram encontradas apenas em 2000, quando o andarilho foi preso por suspeita de envolvimento em outros quatro desaparecimentos. O acusado indicou, segundo a polícia, o local onde os corpos haviam sido enterrados. Pelo menos oito processos foram abertos contra Orpinelli em cidades do norte e noroeste do Estado por desaparecimento e morte de nove crianças. Em três das ações, o andarilho foi condenado e, desde 2000, cumpre pena na Penitenciária 2 de Serra Azul, região de Ribeirão Preto. Segundo a delegada Sueli Isler, titular do 1º Distrito Policial de Rio Claro e responsável pela prisão do acusado, os crimes têm características semelhantes. "As crianças sofriam abuso sexual e depois eram espancadas ou esganadas", contou Sueli. A delegada disse que elas eram atraídas com doces e gestos de amizade. A primeira condenação, a 18 anos e 8 meses de prisão, foi proferida em setembro de 2001, em Monte Alto, pelo rapto e morte de Edson Carvalho, de 11 anos. No mesmo ano, Orpinelli foi condenado a 16 anos de reclusão pela morte de Crislaine Barbosa, de 4 anos, em 1999, em Pirassununga. A terceira sentença, de 2002, foi a condenação a 27 anos e 4 meses de prisão pela morte de Jéssica Martins, de 9 anos, em 1999, em Franca. O advogado Carlos Benedito Pereira da Silva afirmou que em Rio Claro o andarilho não recebeu nenhuma condenação. "Aqui são cinco casos envolvendo seis crianças. Dois foram arquivados e, em outros dois, Orpinelli foi impronunciado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (não vai a júri popular)", disse Silva. No julgamento de hoje, ocorreu o contrário: a Justiça local havia decidido não levar Orpinelli a júri, mas o TJ reformou a decisão. "Vou sustentar a tese vitoriosa dos outros processos: ele não cometeu os delitos e as provas são forçadas, incongruentes. As confissões foram obtidas mediante coação", afirmou Silva. O promotor José Maria Gomes não vai se pronunciar sobre o caso, antes do julgamento. HISTÓRICO A defesa de Orpinelli informou que o exame de sanidade mental do cliente não apontou retardo. "Ele só é uma pessoa sem cultura, pobre, que teve problemas de criação", disse o advogado. Uma dos sete irmãos de Orpinelli chegou a dizer, em depoimento, que o irmão tinha momentos de revolta quando criança e a mãe chegava a amarrá-lo quando estava mais agressivo. O advogado contou que, após a primeira internação do cliente, aos 15 anos, em uma clínica psiquiátrica em Araras, outras dez passagens foram registradas até os 41 anos. "A informação sempre foi a de que ele era internado por dependência de álcool", disse Silva. Orpinelli nasceu em Araras, mas passou por diversos cidades da região e conta ter trabalhado como engraxate. Entre documentos encontrados pela polícia, quando da prisão do andarilho, havia um caderno no qual ele costumava anotar o nome das cidades pelas quais passava - 26, no total. Um cruzamento de dados feito pela polícia apontava que nesses municípios havia o registro de desaparecimento de, pelo menos, 90 crianças. Em 2000, quando foi preso, Orpinelli disse à imprensa que calculava ter matado 15 crianças e estava arrependido. Para um jornal local, no entanto, ele disse que era acusado de crimes que não havia cometido. "Estão querendo me fazer confessar crimes que não cometi", afirmou, à época. Orpinelli fez aniversário na sexta-feira passada, sem comemoração. "Está monossilábico, aborrecido", observou o advogado.

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