''Montar palanques é a boa dificuldade''

Coordenador da campanha da pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel considera naturais os desentendimentos nos partidos da base para a montagem dos palanques regionais. "Esta é a boa dificuldade. Ela advém do fato de que a nossa coligação é muito ampla", argumenta Pimentel. Segundo ele, o tucano José Serra, principal rival de Dilma na disputa presidencial, não tem problemas nessa área porque sua aliança é muito restrita. "Quem tem só três partidos não tem dificuldade para montar palanque. Isso é bom? Não sei, prefiro a dificuldade dos muitos partidos e do grande apoio político", defende nesta entrevista ao Estado.

Clarissa Oliveira, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

A ex-ministra Dilma Rousseff começou a dar seus primeiros passos. Como o sr. avalia esta primeira fase da pré-campanha?

Trabalhamos com uma candidatura no início totalmente desconhecida. Saímos, há um ano e meio, de 2%, 3%, 4% nas pesquisas e estamos agora, ainda antes da campanha propriamente dita, na casa dos 30%. Claro que isso se deve em enorme medida à popularidade do presidente Lula, mas tem a ver também com a condução da pré-campanha. Não cometemos nenhum grande erro. Isso gerou uma curva ascendente que se prolonga até agora.

Mas pequenos erros já provocam polêmica, como aquela frase supostamente sobre exilados. Houve valorização excessiva desse tema. Não foi isso o que ela quis dizer. Ela disse que estava se referindo à sua característica de vida, sua característica pessoal. Disse: "Não me atemorizo. Não me deixo intimidar". Ela nunca fez referência, direta ou indireta, a qualquer outro personagem. Muito menos ao governador Serra ou aos exilados brasileiros. Agora, estamos fazendo uma pré-campanha de uma candidata que ainda é pouco conhecida. É preferível correr o risco de ser mal interpretada do que ficar calada e continuar desconhecida.

O sr., na última eleição, uniu forças com Aécio Neves. Outra polêmica foi a tal chapa "Dilmasia". O senhor é favorável?

Esse ponto foi muito debatido, explorado, mas pouco aprofundado. Tem aí um conteúdo político. Ela quis dizer que Dilmasia não vai haver. O eleitor da Dilma não vota no Anastasia. Agora, o eleitor do Anastasia, do Aécio, do campo social-democrata em Minas, este sim pode votar na Dilma. Até porque Aécio não se tornou candidato a presidente e Minas certamente esperava isso. Então, o governador Serra vai ter dificuldade em obter os votos, até mesmo no campo tucano em Minas.

Mas o senhor fala com confiança nessa capacidade de unificar e atrair votos, mas na hora de montar os palanques regionais ainda há muitas dificuldades.

Esta é a boa dificuldade. Ela advém do fato de que nossa coligação é muito ampla. Tem PT, PMDB, PC do B, PDT, PR e o PP provavelmente virá. Hoje não temos o PSB porque o ex-ministro Ciro Gomes se pretende candidato, mas pode ser que tenhamos. Uma base tão ampla gera esse tipo de problema. A aliança de Serra é muito restrita. É DEM e PPS, basicamente, além do PSDB. Quem tem só três partidos não tem dificuldade para montar palanque. Isso é bom? Não sei, prefiro a dificuldade dos muitos partidos e do grande apoio político.

Sobre Ciro, o PT tentou de tudo e agora haveria nova conversa prevista com o presidente e uma das coisas postas na mesa é um ministério. É a última cartada?

Não acho que a negociação se dê dessa forma. O Ciro é um personagem que a gente respeita, é um aliado nosso, uma pessoa que tem todo o direito, condição e legitimidade para ser candidato a presidente. Ele tem um entendimento diferente do nosso de que presta um serviço maior sendo candidato, por achar que isso forçaria um segundo turno. Mas acho que o decorrer do tempo, agora, mostra que essa posição precisa ser revista. Até para preservá-lo. Não podemos expô-lo a uma campanha em que ele entra isolado, que é o que vai acontecer provavelmente, com tempo escasso de televisão, para sair no final menor do que entrou.

Mas a prioridade não é exatamente evitar que o Ciro saia arranhado, mas sim a unidade da base na campanha da Dilma.

As duas coisas. O ex-ministro Ciro Gomes tem sido muito crítico em relação ao meu partido, mas, ainda assim, majoritariamente, o partido o considera um companheiro e tem por ele respeito e admiração. Queremos evitar que saia mal dessa negociação. Mas não é com uma troca de posição, com um ministério. Ciro não precisa disso. Acho que se trata de uma discussão política, de convencimento, de que a melhor estratégia para nós é a unidade, tentar resolver o assunto da eleição em um turno único.

Dá para ter facilmente uma vitória em primeiro turno?

Facilmente não. Nem para a Dilma, nem para Serra. Mas, se nós tivermos menos candidatos, conseguiremos resolver num turno só.

Até o presidente Lula teve dificuldade de fazer isso. Não é difícil imaginar que ela tenha mais facilidade?

A Dilma já demonstrou uma grande capacidade. É a grande executora de políticas do governo do presidente Lula. O que está em jogo é o projeto de governo e estamos muito convencidos de que a ministra Dilma encarna esse projeto muito bem.

Ela vai partir para a briga no relacionamento com Serra?

Nós não vamos fazer uma campanha agressiva contra ninguém, muito menos contra o governador Serra, até porque nós o respeitamos muito. Agora, estamos disputando projetos. E a ministra Dilma vai demarcar muito claramente que são dois projetos diferentes.

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