Moradores confirmam prática de tortura em favela do Rio

Segundo moradores, é prática comum os milicianos, que ainda estão no local, torturarem as pessoas

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2008 | 19h58

Na Favela do Batan, o silêncio é a lei. Moradores falam apenas com a garantia do anonimato e após muita insistência. Eles confirmam a versão publicada no jornal O Dia sobre a tortura da equipe de reportagem. Em alguns minutos, lembram vários casos de moradores espancados e expulsos da comunidade após cometerem infrações condenadas pelos milicianos. A única exceção é o presidente da Associação de Moradores da Favela do Batan, Everaldo Costa. Ele desconhece a atuação de milícias ou qualquer abuso cometido contra moradores e afirma desconfiar que a reportagem foi inventada.   Veja também: Deputados pedem apuração de tortura a jornalistas no Rio   "Quando li no jornal fiquei surpreso. Não ouvi comentário algum aqui sobre a presença de jornalistas ou que eles foram espancados. Acho que não aconteceu e que eles tentam se promover para ganhar dinheiro. Como foi o caso Ronaldinho. Quando os travestis tentaram ganhar dinheiro denegrindo a imagem do rapaz", disse Costa.   Recentemente empossado, ele negou ainda a existência de milícias na favela. "O que ocorreu aqui é que acontecia um assalto por minuto e as adolescentes eram estupradas. Os moradores se uniram e expulsaram os vagabundos. O pessoal do 14º matou o resto em confronto" ressaltou o líder comunitário em referindo-se ao 14º Batalhão de Polícia Militar de Bangu, na zona oeste.   Curiosamente, o presidente da associação é único morador da favela que parece não temer o 14º BPM. "O clima é de terror geral. Não é à toa que as pessoas estão mudas. É o próprio 14º BPM que está investigando. Você acha que eu vou denunciar a polícia para a própria polícia?", questionou um morador, que recebeu de uma policial militar um panfleto com os telefones do batalhão e do Disque-Denúncia.   Ele acrescentou que os milicianos, ao contrário do divulgado pela polícia, não foram embora. "Eles continuam na área. Ontem estavam aqui à noite. A única diferença é que não circulam mais com armas, mas continuam aqui até a Vila Catiri (favela vizinha)", revelou o morador.   Uma outra moradora disse não acreditar na prisão dos milicianos. "Estão falando isso, porque aconteceu com os repórteres. Muita gente aqui foi torturada. Não respeitavam nem militar. Um rapaz cabo de Exército apanhou e foi expulso, porque eles acharam que o carro dele estava em alta velocidade. Tem muita gente poderosa por trás da milícia" concluiu a mulher.   Para os moradores, os milicianos tem a certeza da impunidade. "Uma pessoa me contou que viu a equipe do O Dia sendo levada e esculachada. Ela não sabia quem eram eles. Todo dia vemos viciados obrigados a fazer faxina. Uma menina de 15 anos era espancada todo dia sob a acusação de ter sido namorada de um vagabundo até que ela desistiu e saiu da favela. Logo, isso não é novidade e infelizmente não vai mudar", relatou um morador.

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