REUTERS/Washington Alves
REUTERS/Washington Alves

Moradores de duas cidades de MG são retirados de casa por risco em barragens

Estruturas foram construídas pela técnica à montante; segundo a Agência Nacional de Mineração, laudos não atestaram estabilidade

Redação, O Estado de S. Paulo

08 de fevereiro de 2019 | 06h52
Atualizado 09 de fevereiro de 2019 | 09h00

BELO HORIZONTE - Quase 600 moradores dos municípios de Barão de Cocais, a 80 km de Belo Horizonte, e Itatiaiuçu, a 78 km da capital mineira, foram retirados de suas casas na manhã desta sexta-feira, 8, por causa do risco de rompimento de barragens. Os empreendimentos em Barão de Cocais e Itatiaiuçu são da Vale e da ArcelorMittal, respectivamente. 

Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), os empreendedores e a ANM acionaram o nível 2 de emergência das barragens. Ambas foram construídas com a metodologia de alteamento à montante - técnica mais barata e de maior risco - mas já não estavam em operação. 

Em Barão de Cocais, os moradores foram retirados de suas casas pela Defesa Civil na manhã desta sexta depois que soou uma sirene que monitora a barragem Sul Superior, na mina Gongo Soco, da Vale. Segundo informou a Defesa Civil na tarde desta sexta-feira, foram retiradas de suas cadas 393 pessoas.

Também foram evacuadas cerca de 65 famílias da cidade de Itatiaiuçu. Elas moravam em área de risco em caso de rompimento de uma barragem na mina de Serra Azul, um empreendimento da ArcelorMittal.  

O coordenador adjunto da Defesa Civil de Minas Gerais, coronel Flávio Godinho, afirmou que as minas em Barão de Cocais e Itatiaiuçu foram paralisadas. "As operações nas duas minas estão temporariamente suspensas e só retomarão as atividades após as empresas Vale e ArcelorMittal apresentarem os laudos comprovando a estabilidade das barragens."

Segundo a ANM, empresas terceirizadas fizeram inspeções nos locais para elaboração de um documento chamado Declaração de Condição de Estabilidade (DCE). "Nenhuma das empresas atestou a estabilidade das barragens", informou a agência, em nota.

O nível de emergência 2 é determinado quando uma anomalia detectada anteriormente não foi extinta ou controlada. O nível máximo de emergência é o 3, quando o problema está fora de controle e um acidente torna-se inevitável. 

Barão de Cocais

A Prefeitura de Barão de Cocais comunicou o acionamento do nível 2 de risco na barragem Sul Superior da Mina do Gongo Soco diante de observações e monitoramentos realizados pela ANM, pela Defesa Civil do Estado e do município, e pela Vale. A informação, segundo a prefeitura, era de um desnível na estrutura.

"Por esse motivo, seguindo as recomendações repassadas pelos entes responsáveis e pela mineradora, os moradores da comunidade do Socorro e adjacências estão sendo evacuados neste momento por ônibus da Vale e demais veículos de apoio", informou em nota publicada nesta-feira no Facebook. 

Segundo a prefeitura, o procedimento é feito por precaução. Os moradores foram levados ao ginásio poliesportivo da cidade. De lá, segundo a Defesa Civil, 205 foram encaminhados a hotéis e 188 para casas de parentes. 

A Vale disse que a decisão foi preventiva, tomada após a empresa de consultoria Walm negar a declaração de estabilidade à estrutura. Também informou que está intensificando as inspeções na barragem e implantando equipamentos com capacidade de detectar movimentações milimétricas na estrutura. 

A barragem Sul Superior recebia os rejeitos da mina de Gongo Soco. A extração de minério de ferro do local foi paralisada, segundo a mineradora, em abril de 2016. A Sul Superior é uma das dez barragens à montante inativas remanescentes da empresa e faz parte do plano de descomissionamento anunciado no dia 29, quatro dias após o desastre de Brumadinho.

Medo

"Faz três anos e três meses que era para eu estar morto. Mas naquele dia saí mais cedo do trabalho. Meu patrão pediu para eu viajar, então saí às 15h20, em vez de 16h30, 17h, como era de costume. A barragem estourou umas 16h. Só soube quando cheguei a Fonseca. Agora não acredito que estou vivendo tudo de novo."

O relato é de José Geraldo de Almeida Filho que acordou nesta sexta-feira por volta de 2 e pouco da manhã com o som de um alarme soando na comunidade onde vive, de Socorro. Sobrevivente por pouco do desastre da Samarco em Mariana em novembro de 2015, ele se viu nesta madrugada diante de um novo risco de rompimento de barragem da Vale em Barão de Cocais.

Correu para uma casa vizinha, onde moram seu pai, que sofre de problemas cardíacos, e a avó, cadeirante, de 95 anos. E para outra, onde vivem um primo com a mulher. Ao todo, na região moram uns 25 parentes seus. Ele e o primo puseram a vó e o pai dentro do carro e correram dali, para uma região mais alta.

Apesar de ter tido a experiência de Mariana, e passadas exatas duas semanas após o rompimento da barragem de Brumadinho, que já contabiliza 157 mortos, Geraldo afirma que nunca sentiu medo de viver tão perto de uma barragem. "Sou nascido e criado lá. A gente conhece bem a região, pensava que não tinha perigo. Agora tem medo de voltar para casa - algo ainda sem previsão. "Agora a gente sabe que todo mundo pode morrer. É fora de questão voltar, a não ser que a Vale esvazie tudo lá."

Geraldo conversou com o Estado algumas horas depois do sufoco, hospedado em um dos hotéis da região. Calcula-se que cerca de 500 pessoas frequentem as cinco comunidades rurais que ficam na área direta que pode ser atingida em caso de rompimento da barragem Sul Superior, mas não necessariamente vivam ali, porque muitas das propriedades são sítios de passeio. Das encontradas pela Defesa Civil na região, 31 estavam resistentes em deixar suas casas. 

É o caso do marido de Vilma Aparecida dos Santos, que não quis ir embora, mesmo quando a mulher e o filho mais novo foram levados para um hotel. "Ele ficou com cinco amigos, porque acha que não vai acontecer nada. Mas eu não arrisquei. É claro que pode acontecer."

Somente o hotel Ímpar, em Barão de Cocais, para onde foram Geraldo e Vilma, foram registradas pelo menos 13 famílias, algumas com cinco, seis pessoas. Rose Nepomuceno foi com o marido e os três filhos, um deles um bebê de um ano e três meses. 

"Saí de camisola, pegando as crianças. Meu marido correu para abrir a cocheira e deixar os animais soltos, para que eles tivessem alguma chance de correr. Estávamos há quatro anos ali, mas há um que conseguimos deixar o sítio do jeito que a gente queria. Fizemos a lagoa de peixe para ter um pesque-pague. As pessoas vinham, passavam o fim de semana. A gente acreditou que nunca haveria nenhum perigo.

Outra família deslocada em Barão de Cocais é a de Beatriz Ferreira Couto, que abandonou sua casa na comunidade de Socorro por volta de 3 horas, quando foi acordada por um sobrinho do marido. “Eu mesma não acordei com a sirene, ouvi depois só. Moramos mesmo muito perto, a barragem está uma montanha atrás da gente. Tivemos tempo apenas de pegar os documentos.” 

Ela, a filha, de 14 anos, o marido e uma vizinha correram para um ponto mais alto e, de lá, foram transportados em um ônibus da Vale para o ginásio poliesportivo da cidade. “Até ouvi helicóptero passando por lá ontem, mas não achei que era nada. Aí hoje fomos acordados assim.”

Emilly Rodrigues da Silva, filha de Beatriz, conta que fez uma visita ao local recentemente e viu ao pé da barragem acúmulo de água. “Parecia uma lagoa”, diz. A família lamenta que teve de deixar todos os bichos para trás. “Ficou um casal de calopsita, galinhas, cachorro, peru, ganso, gato…”, enumera com tristeza Beatriz.

Outra moradora que estava desolada por ter deixado seus animais para trás é Maria Gonçalves Lopes, de 79 anos, moradora da comunidade Três Moinhos, onde há pessoas que moram à beira do Rio São João. Ela foi retirada pela filha, Maria da Conceição, que mora em outro bairro, mas soube do alerta por um parente e saiu correndo com o marido para resgatar a mãe. “Já estou com saudade das minhas galinhas, tadinhas.”

O filho mais novo de Maria é funcionário da Vale e trabalha na mina de Brucutu, próxima à região e que teve as atividades paralisadas no início da semana. A barragem Laranjeiras fica à jusante de Cocais, mas não tem ligação com o alerta desta sexta. “Hoje a gente teme por ele, mas antes não achava que nada poderia acontecer. Só soubemos do risco depois de Brumadinho”, afirma Conceição.

Segundo o major Eduardo Lopes, da Defesa Civil, neste primeiro momento, foram retiradas somente as pessoas localizadas em comunidades rurais na área de alcance imediato dos rejeitos em caso de rompimento da barragem. Havia, no fim da tarde desta sexta-feira, 31 pessoas resistentes, que não queriam deixar suas casas.

“O nível de alerta 2, que permanece, determina a evacuação, por isso a nossa recomendação de não haver pessoas nesse local. Havendo o rompimento, esperamos que não haja pessoas. O estudo de impacto de um desastre mostra que ele afetaria essas residências”, explicou Lopes.

Segundo Lopes, a projeção feita pela empresa é de que o rejeito alcançaria em torno de 11 km, ainda na parte rural da cidade. “Retiradas todas as pessoas, nossa preocupação agora é com uma possível inundação por causa de aumento de volume do rio com o rejeito”, disse. "A expectativa é que, se romper, trabalhamos com uma margem de uma hora, uma hora e dez minutos, partindo do ponto do eventual rompimento, para que essa água alcance o município. A gente fala que a tendência é de que o rejeito fique ao longo do caminho."

Itatiaiuçu 

Em Itatiaiuçu, a 80 quilômetros de Belo Horizonte, cerca de 200 pessoas do bairro Pinheiros foram retiradas de suas casas por volta das 3 horas desta sexta-feira, nas proximidades da barragem de rejeitos de Serra Azul, que pertence à ArcelorMittal. Elas foram retiradas das casas por bombeiros e policiais e foram levadas para um hotel. Não ocorreu acionamento de uma sirene.

Segundo o sargento Leandro Faria, do 2º Pelotão de Bombeiros de Itaúna, que fica a 32 quilômetros de Itatiaiuçu, o Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 2 horas, por medida de precaução após riscos estruturais da mina. A Defesa Civil solicitou à mineradora que faça o resgate de animais.

A mina de Serra Azul produz 1,2 milhões de toneladas de concentrado e minério granulado. A barragem de rejeitos, que é do tipo à montante - mesmo modo de construção das que romperam em Mariana e Brumadinho -, está desativada desde outubro de 2012.  

De acordo com o Corpo de Bombeiros, se houver o rompimento da barragem, os rejeitos podem atingir a BR-381, que liga Belo Horizonte a São Paulo e o Rio Manso.

Em nota, a ArcelorMittal informou que a medida foi de precaução - a comunidade se situa a 5 km de distância da barragem. A empresa concluiu que não se pode correr absolutamente "nenhum risco, e que, apesar do transtorno para a comunidade, esta é a decisão correta".

Segundo o presidente da empresa no Brasil, Benjamin Baptista, ainda não há previsão de retorno das famílias retiradas do local. “Pedimos desculpas à comunidade local pelo transtorno. Procuraremos retornar as pessoas para suas casas o tão logo possível, embora a esta altura não seja possível dizer quando será", disse em nota.

De acordo com a empresa, os membros da comunidade permanecerão acomodados no novo local enquanto testes adicionais estão em andamento e até que a segurança da barragem de rejeitos possa ser 100% garantida.

O pedreiro Joaquim Ramos Teixeira, de 50 anos, foi acordado nesta sexta, às 3 horas por uma vizinha alertando que era para todo mundo sair de casa porque a sirene da barragem da ArcelorMittal havia soado. 

"Moro com a minha mãe, que tem 100 anos e não consegue andar direito. Quando chegamos à rua, já encontramos policiais e os bombeiros. Um a pegou pela mão, outro por outra. Avisei que precisava pegar os remédios dela. O policial disse: é só isso e mais nada", relata o pedreiro.

Teixeira, a mãe, dona Isabel Ramos de Jesus, e mais de 200 pessoas foram levadas para um hotel na cidade vizinha de Itaúna. A maioria, apenas com a roupa do corpo. Há crianças e pelo menos uma grávida, além de idosos. Por volta do meio-dia, o grupo ainda aguardava informações sobre se voltariam ou não para casa ainda nesta sexta.

Outro pedreiro retirado de casa pelo risco de rompimento da barragem, Crispim Pereira, de 44 anos, afirma ter ficado com muito medo de acontecer mais uma tragédia com barragens em Minas. O pedreiro mora com a mulher e duas filhas, de 2 e 8 anos, a cerca de dois quilômetros da barragem. "Teve gente que saiu a pé, de bicicleta, do jeito que deu. É mais uma dessas barragens de Minas.

Previsão

O tenente e porta-voz do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, Pedro Aihara, afirmou que as pilhas de rejeitos das duas barragens são menos líquidas e molhadas do que a que se rompeu em Brumadinho. "Os volumes também são menores, com a composição do rejeito mais seca", disse em coletiva de imprensa.

Segunda o coronel Evandro Borges, da Defesa Civil, as familiares poderão retornar às casas apenas quando um laudo técnico, referendado por um órgão competente, atestar que não há risco. "Não existe, nessas duas cidades, nenhum rompimento de barragem. A evacuação foi uma forma de prevenção."/ANA PAULA NIEDERAUER,  GIOVANA GIRARDI, JÉSSICA OTOBONI e LEONARDO AUGUSTO, ESPECIAL PARA O ESTADO

 

 

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