Moradores de Nova Sepetiba vêem favelização de residencial

Processo de abandono do conjunto habitacional lembra criação da Cidade de Deus há 50 anos

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2008 | 00h00

Com 4 mil casas, o Nova Sepetiba foi anunciado há sete anos como "o maior conjunto habitacional da América Latina". Hoje, seus 20 mil moradores assistem à favelização do empreendimento criado a 69 quilômetros do centro do Rio, na zona oeste da cidade, e protagonizam a luta contra a sina de todos os megaconjuntos habitacionais do Rio, como Cidade de Deus, Vila Kennedy e Vila Aliança, na mesma região. Sem empregos, transporte e saneamento, o que era para ser moradia digna virou favela. E, apesar dos alertas dos moradores e da condenação de urbanistas, o governo estadual já prepara o Nova Sepetiba 2, com a construção de outras 626 casas. A justificativa oficial é que o Nova Sepetiba "combate a ocupação desordenada e a favelização com moradias dignas". Já a pesquisadora Regina Bienenstein, do Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais Urbanos da Universidade Federal Fluminense (UFF), considera os megaconjuntos habitacionais uma idéia segregacionista e ultrapassada. "Nenhum outro governo estadual aposta nisso no País. Essas construções penalizam os moradores, pois eles recebem as casas, mas não o conceito de moradia, pois não têm infra-estrutura. Apenas são removidos e jogados longe pra evitar a ?mistura social?. Sem opções, muitos vendem a casa."As semelhanças entre os conjuntos habitacionais não têm fim. Em 2001, Nova Sepetiba serviu como locação para o filme Cidade de Deus. Além do cenário idêntico, formado por milhares de casas com 32m² emparelhadas , as biografias dos moradores dos dois conjuntos habitacionais também são parecidas. Como na Cidade de Deus de 50 anos atrás, Nova Sepetiba também é povoada por desabrigados, sem-teto, exilados pelo tráfico de drogas e desvalidos em geral.O índice de trabalhadores sem Carteira de Trabalho assinada chega a quase 80%. A maioria sobrevive de biscates. O toque contemporâneo fica por conta dos 20% dos habitantes que são policiais militares. Alguns deles atuariam como milicianos, conforme denúncias à Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias da Assembléia Legislativa. Em março, o cabo da PM Sebastião Hernandes Silva, de 34 anos, apontado como o chefe da milícia, foi morto a tiros. A 36ª Delegacia de Polícia de Santa Cruz apura outros três assassinatos ligados à milícia na região. O presidente da Associação dos Moradores de Nova Sepetiba, Marcelo Santos Dias, de 37 anos, estima que 20% dos moradores originais já abandonaram Nova Sepetiba. Ele foi um dos primeiros moradores a chegar em 2001, ano da inauguração do conjunto habitacional. Como muitos dos seus vizinhos, ficou desempregado após o governo estadual abandonar a obra de uma área esportiva na comunidade. "Paramos de receber há dois anos. Só ficaram os vigias", lembra Dias. Procurada, a Companhia Estadual de Habitação (Cehab) prometeu o término de todas as obras até o fim de 2009. Com quatro filhos e três sobrinhos adotivos, Dias e a mulher formam a típica e numerosa família de Nova Sepetiba onde cada casa tem, em média, cinco moradores. "Viemos de uma ocupação com 190 famílias em um terreno do Metrô, no centro do Rio. Ganhamos a casa, mas ainda não temos o título de propriedade ", ressalta. O líder comunitário lembra que no início o governo prometia evitar a favelização com um pacote de medidas que incluía o "acompanhamento de urbanistas e assistentes sociais" nunca vistos pelo líder comunitário. "Construímos mais dois quartos porque a família cresceu. Não recebemos nenhuma orientação", confirma a dona de casa Marinéia Alves de Lima, de 53 anos, que mora em uma casa com 7 adultos e 11 crianças, entre 1 e 11 anos de idade. Para urbanistas, Nova Sepetiba está na contramão da orientação para modelos de habitação popular do Ministério das Cidades e trará mais gastos ao Estado, que terá de levar serviços de infra-estrutura para uma população numerosa em uma área que nem sequer estava povoada."O ministério orienta os governos a diversificar os modelos de habitação popular", salienta a pesquisadora da UFF. Ela avalia que a oferta de habitação popular a preço acessível ainda é tímida, mas aponta que algumas das moradias que solucionariam o déficit habitacional no Rio estão prontas. "São prédios abandonados, muitas vezes pelo poder público, no centro, que devem ser aproveitados como habitação. O Estatuto das Cidades tem instrumentos que torna isso possível. Basta vontade política", afirma Regina.

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