Moradores de periferia evitam zona sul do Rio

De cada cem moradores de Acari, Anchieta e Pavuna - três subúrbios cariocas a cerca de 30 quilômetros da região central -, 65 nunca ou, raramente, vão à zona sul. Muitos (44%) também visitam pouco o centro da cidade. É o que revela pesquisa realizada pelo Instituto GPP, que traçou o perfil desses moradores, com base em 1.600 entrevistas, feitas entre dezembro e março. Apesar de passar a maior parte do tempo no bairro, os moradores confiam pouco nos vizinhos, nas igrejas e nos pastores como relataram aos pesquisadores do GPP. Apenas a família merece confiança da maior parte dos entrevistados (88%). O resultado da pesquisa é preocupante, segundo especialistas, porque indica a existência de um gueto, onde as pessoas vivem isoladas e, mesmo assim, não se comunicam. "A princípio, poderíamos pensar que essa é uma comunidade autônoma que não vai à zona sul porque mantém atividades no bairro, mas as outras respostas revelam que a sociabilidade desse local é precária", analisa o sociólogo Nelson Carvalho, coordenador da pesquisa. O motivo da falta de ligação com a vizinhança pode ser explicada pela violência e pelo tráfico de drogas, comuns nessas regiões. As entrevistas mostraram que os moradores têm mais medo do tráfico do que do desemprego - 74,2% disseram que a droga ameaça mais a família do que a falta de ocupação. Outro resultado considerado "desintegrador" pelos especialistas é o grande número de jovens sem religião. Dos 11 3% que disseram não ter religião, a maioria tinha menos de 24 anos. "Não é que todos precisem acreditar em algo, mas a ida à igreja aproxima as pessoas", analisou Carvalho. Nessas comunidades, a religião mais mobilizadora é a evangélica - 27% são evangélicos e 72% deles disseram que "sempre" vão ao culto o triplo dos católicos da comunidade, que afirmaram freqüentar costumeiramente a igreja. ONUO retrato da comunidade Acari/Pavuna/Anchieta revelado pela pesquisa do GPP demonstra os efeitos dos problemas que foram indicados pela Organização das Nações Unidas (ONU). Os três bairros receberam os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade. Acari é o bairro mais conhecido dos três. Como Pavuna e Anchieta, começou a ser povoado no início dos anos 1960 e é uma região que mistura morros com favelas planas. A maioria dos moradores está no local há mais de dez anos, ganha até cinco salários mínimos e mora em casa construída ilegalmente e em terreno invadido. No início dos anos 90, o bairro tornou-se conhecido por causa da "Robauto", uma feira realizada nos fins de semana que ganhou o nome dos moradores por causa da procedência suspeita dos produtos. Lá, é possível comprar desde partes de carros desmontados até animais silvestres. Por desafiar tão acintosamente a polícia, a feira virou tema de rap, de enredo da Escola de Samba Unidos da Ponte e reportagem em jornais do mundo todo. Problemas de sociabilidadeA pesquisa do instituto foi encomendada pela prefeitura do Rio para saber como essa população avalia a administração atual. Um dos resultados que preocupou o prefeito César Maia (PFL) foi a falta de conhecimento dos moradores sobre as funções do governo do Estado e da prefeitura - 46% dos moradores não souberam identificar qual são as responsabilidades de cada um. "Essa população não sabe qual é a competência dos diferentes níveis do governo. A prefeitura tem de comunicar-se mais com esses moradores e mostrar o que faz e o que não é competência dela", afirmou o prefeito, na segunda-feira, numa reunião com o secretariado para discutir a pesquisa. Outra preocupação de Maia são os altos porcentuais de pessoas que afirmaram não ter religião e não confiar no vizinho. "São dois indícios que essa população está com problemas de sociabilidade." O cientista social Nelson Carvalho concorda. "Essa falta de confiança pode, realmente, estar ligada à violência do cotidiano dessas pessoas, mas também pode estar revelando uma tendência moderna, que é o individualismo e a redução dos laços", observou.De cada cem moradores de Acari, Anchieta e Pavuna - três subúrbios cariocas a cerca de 30 quilômetros da região central -, 65 nunca ou, raramente, vão à zona sul. Muitos (44%) também visitam pouco o centro da cidade. É o que revela pesquisa realizada pelo Instituto GPP, que traçou o perfil desses moradores, com base em 1.600 entrevistas, feitas entre dezembro e março. Apesar de passar a maior parte do tempo no bairro, os moradores confiam pouco nos vizinhos, nas igrejas e nos pastores como relataram aos pesquisadores do GPP. Apenas a família merece confiança da maior parte dos entrevistados (88%). O resultado da pesquisa é preocupante, segundo especialistas, porque indica a existência de um gueto, onde as pessoas vivem isoladas e, mesmo assim, não se comunicam. "A princípio, poderíamos pensar que essa é uma comunidade autônoma que não vai à zona sul porque mantém atividades no bairro, mas as outras respostas revelam que a sociabilidade desse local é precária", analisa o sociólogo Nelson Carvalho, coordenador da pesquisa. O motivo da falta de ligação com a vizinhança pode ser explicada pela violência e pelo tráfico de drogas, comuns nessas regiões. As entrevistas mostraram que os moradores têm mais medo do tráfico do que do desemprego - 74,2% disseram que a droga ameaça mais a família do que a falta de ocupação. Outro resultado considerado "desintegrador" pelos especialistas é o grande número de jovens sem religião. Dos 11 3% que disseram não ter religião, a maioria tinha menos de 24 anos. "Não é que todos precisem acreditar em algo, mas a ida à igreja aproxima as pessoas", analisou Carvalho. Nessas comunidades, a religião mais mobilizadora é a evangélica - 27% são evangélicos e 72% deles disseram que "sempre" vão ao culto o triplo dos católicos da comunidade, que afirmaram freqüentar costumeiramente a igreja. ONUO retrato da comunidade Acari/Pavuna/Anchieta revelado pela pesquisa do GPP demonstra os efeitos dos problemas que foram indicados pela Organização das Nações Unidas (ONU). Os três bairros receberam os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade. Acari é o bairro mais conhecido dos três. Como Pavuna e Anchieta, começou a ser povoado no início dos anos 1960 e é uma região que mistura morros com favelas planas. A maioria dos moradores está no local há mais de dez anos, ganha até cinco salários mínimos e mora em casa construída ilegalmente e em terreno invadido. No início dos anos 90, o bairro tornou-se conhecido por causa da "Robauto", uma feira realizada nos fins de semana que ganhou o nome dos moradores por causa da procedência suspeita dos produtos. Lá, é possível comprar desde partes de carros desmontados até animais silvestres. Por desafiar tão acintosamente a polícia, a feira virou tema de rap, de enredo da Escola de Samba Unidos da Ponte e reportagem em jornais do mundo todo. Problemas de sociabilidadeA pesquisa do instituto foi encomendada pela prefeitura do Rio para saber como essa população avalia a administração atual. Um dos resultados que preocupou o prefeito César Maia (PFL) foi a falta de conhecimento dos moradores sobre as funções do governo do Estado e da prefeitura - 46% dos moradores não souberam identificar qual são as responsabilidades de cada um. "Essa população não sabe qual é a competência dos diferentes níveis do governo. A prefeitura tem de comunicar-se mais com esses moradores e mostrar o que faz e o que não é competência dela", afirmou o prefeito, na segunda-feira, numa reunião com o secretariado para discutir a pesquisa. Outra preocupação de Maia são os altos porcentuais de pessoas que afirmaram não ter religião e não confiar no vizinho. "São dois indícios que essa população está com problemas de sociabilidade." O cientista social Nelson Carvalho concorda. "Essa falta de confiança pode, realmente, estar ligada à violência do cotidiano dessas pessoas, mas também pode estar revelando uma tendência moderna, que é o individualismo e a redução dos laços", observou.

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