Moradores de rua e desempregados invadem prédio no Rio

Cerca de 150 pessoas, entre elas moradores de rua e desempregados, invadiram esta madrugada um prédio residencial de três andares, no Rio Comprido, zona norte do Rio. A Polícia Militar foi acionada para garantir a liberação do imóvel, que estaria desocupado há 20 anos, e precisou usar reforço de efetivo e gás de pimenta. No prédio, um grupo de apoio, em parte estudantes, permaneceu durante todo o dia, cantando e gritando palavras de ordem. Eles só devem deixar a propriedade na manhã de terça-feira.Segundo dois vigilantes que trabalham no local, o prédio foi tomado por volta da 1h da madrugada. "Fui acordado por um grupo pequeno. Diziam que tinham que entrar, mas que vinham em paz. Depois foram chegando outros", relatou Girceu Marins da Silva, de 77 anos. Pela manhã, faixas foram espalhadas pelas janelas do edifício, que tem três blocos e 32 apartamentos. Em uma delas estava escrito "Se morar é um direito, ocupar é um dever"; em outra "Quilombo das Guerreiras", que seria a nova denominação do edifício. O proprietário do imóvel, o advogado Paschoal Scofano, de 62 anos, estava revoltado. "O prédio foi de meu pai e agora é meu. Pago todos os impostos e comecei a reformá-lo para alugar os apartamentos. Isso é um absurdo. O Estado precisa manter a ordem e não é isso o que está acontecendo aqui", reclamou. O advogado do Instituto de Terras e Cartografias do Estado do Rio de Janeiro (Iterj), Nelson Luiz Pacheco, afirmou que, por estar com os impostos em dia e por ter chegado ao local poucas horas após a invasão, o proprietário tem o direito de conseguir o despejo sem necessidade de ordem judicial. "É o que chamamos `esforço próprio´. Ele pode acionar a polícia ou quem quer que seja para garantir a retirada dos invasores", explicou. Negociação No entanto, Scofano acabou aceitando a negociação feita pela Secretaria Estadual de Direitos Humanos, em parceria com o Iterj e com a Companhia Estadual de Habitação (Cehab). Segundo o acordo, o governo estadual vai cadastrar todas as famílias e buscar outro local para acomodá-las. Elas, porém, não querem ficar em abrigos, pelo menos, não de forma definitiva. "Começamos a fazer o cadastro mas, como são muitas famílias, isso deve acabar tarde. Não seria humano retirá-los à noite. Vão dormir aqui e saem amanhã", afirmou nesta segunda-feira a assistente da presidência da Cohab, Flora Maranhão, contando que, no momento, não há recurso e nem tempo, por causa das eleições e para desapropriar o imóvel.Flora criticou o fato de a Prefeitura não ter comparecido ao local. "Eles foram acionados e se negaram a vir. E isso é uma responsabilidade do poder municipal, pois trata-se de solo urbano, há muitas pessoas sem-teto aí dentro", declarou. Por e-mail, o prefeito Cesar Maia declarou ter vetado a ida de representantes ao prédio. "Já chega de se criar prioridade artificialmente pela força. Quem tem necessidade social tem os canais adequados para demandar. Não é invadindo prédios e chantageando. Em geral são movimentos políticos que estão por trás".

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