Moradores do Palace pedem penhora dos bens de Naya

Diante do atraso no pagamento das indenizações, os ex-moradores do Palace decidiram pedir na Justiça a penhora dos bens de Sérgio Naya. O juiz Alexander dos Santos Macedo, da 4.ª Vara de Falências e Concordatas, acatou o pedido, mas viajou para a Coréia, a fim de assistir a Copa do Mundo, segundo ele mesmo teria informado ao advogado das vítimas, Eduardo Lutz. O processo fica parado enquanto o juiz não voltar. "Ele está atrasando a nossa vida. Enquanto ele se diverte, a gente fica aqui nessa indefinição", queixou-se a presidente da Associação de Vítimas do Palace 2, Rauliete Barbosa Guedes. Ela acusa Sérgio Naya de ter apresentado para penhora, e posterior leilão, um imóvel "sem liquidez" - um shopping em construção na Barra da Tijuca. O advogado de Sérgio Naya, Joaquim Flávio Spíndula, criticou a estratégia dos ex-moradores do Palace. "Foi uma precipitação, que só beneficiou meu cliente", diz. Segundo Spíndula, Naya tinha ainda três meses de prazo, pagando multa que aumenta progressivamente de 5% a 15%. "Agora vou oferecer um imóvel como garantia e pedir o desbloqueio dos demais bens do meu cliente. Não faz sentido ele permanecer com todos os bens indisponíveis", afirmou. Spíndula disse ainda que o leilão judicial pode demorar mais do que se Naya vendesse os imóveis da forma convencional.ConseqüênciasEx-moradora do edifício Palace 2, que ruiu em fevereiro de 1998, matando oito pessoas, Jussara Borges Santos, de 45 anos, acreditou que o deputado cassado Sérgio Naya pagaria as indenizações devidas. Dona de uma pequena transportadora, Jussara vendeu o único caminhão da empresa e deu de entrada numa casa de três quartos, no Recreio dos Bandeirantes. A indenização ainda não chegou e ela não conseguiu arcar com as prestações do imóvel, que chegaram a R$ 6 mil. Resultado: devolveu a casa, perdeu R$ 70 mil investidos, e voltou com o marido e o casal de filhos para um quarto do Hotel Atlântico Sul, também no Recreio. É ali que vivem há quatro anos os moradores do Palace 2, que ficaram sem ter para onde ir depois da demolição do prédio. Jussara e marido dividem a suíte. Os filhos, uma menina de 14 anos e um garoto de 4, dormem num pequeno cômodo sem janela, que antecede o quarto do casal. "Eu já perdi tanto. Perdi duas casas, perdi meu caminhão, perdi meus móveis duas vezes. Não agüento mais", enumera. Nos últimos dois anos, Jussara retirou dois tumores benignos do seio e do ovário. "Acho que é a tensão que faz tudo isso", diz. Jussara e o marido têm direito a uma indenização de cerca de R$ 300 mil.AcordoDono da construtora que ergueu o Palace, Naya fez acordo com os ex-moradores do edifício em janeiro. Ele pagaria cerca de R$ 40 milhões em indenização até 25 de abril. O prazo venceu, mas o ex-deputado alega que não conseguiu vender seus imóveis para honrar o acordo.A demora no pagamento das indenizações está provocando o retorno dos ex-moradores do Palace ao Atlântico Sul. São pessoas que já haviam deixado o hotel, mas tiveram de voltar porque não conseguiram manter suas contas em dia fora dali. É o caso da educadora Rosana Bacelar, de 39 anos. Numa situação semelhante a de Jussara, seus três filhos, com idades entre 13 e 18 anos, dividem um triliche na ante-sala do quarto de casal.O marido de Rosana, o gerente de logística José Roberto Nunes, de 41 anos, foi demitido do emprego. Com o dinheiro do fundo de garantia, o casal comprou um apartamento no Recreio e abriu um berçário. Mas como José Roberto permaneceu desempregado, eles não conseguiram manter o imóvel, que foi posto à venda. "Aprendi a não fazer mais planos na minha vida. Tudo o que planejei nesses anos todos deu errado", afirma. Curiosamente, Rosana conta que sentiu um certo conforto ao voltar para o Atlântico Sul. "Meus vizinhos me tratavam como mulher do Palace?. É um estigma. Aqui, estou em família", diz. Rosana tem direito a cerca de R$ 350 mil de indenização, além do valor que ela e o marido já haviam pago pelo apartamento do Palace.VizinhosTrinta e quatro famílias de ex-moradores do Palace 2 ainda vivem no hotel Atlântico Sul. Esse número chegou a 40, logo depois da demolição. Alguns moradores mudaram-se dali, mas não entregam o quarto, temendo ficar sem ter para onde voltar, caso a vida não se acerte. "O que a gente tem não é bem uma relação de hóspede-funcionário. Parece uma relação entre vizinhos", afirma o gerente do Atlântico Sul, Secondino Lemos Soares. "Não posso dizer que foram criados laços de amizade, porque as pessoas se sentem tolhidas. Aqui é um hotel e tem regras. Mas vi crianças nascerem aqui", diz.Soares nega que a Sersan, empresa de Naya responsável pelo pagamento das diárias - R$ 140, o casal -, esteja em atraso há seis meses, como acusam alguns ex-moradores. "Temos uma conta-corrente. Às vezes eles depositam em dia, às vezes não. Mas isso não configura inadimplência. Estamos satisfeitos", afirma Lemos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.