Fábio Motta/AE
Fábio Motta/AE

Moradores do Santa Marta reclamam de câmera 'big brother'

Comunidade diz que não foi consultada e que não sabe quem tem acesso às imagens gravadas

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo,

29 de setembro de 2009 | 17h51

Moradores do Morro Santa Marta começam a se mobilizar contra as câmeras de segurança instaladas na favela - uma das medidas previstas pela Secretaria de Segurança dentro do projeto da Unidade de Policiamento Pacificadora (UPP). Eles se queixam que não foram consultados sobre o posicionamento dos equipamentos e que não têm informações sobre quem tem acessos às imagens nem o destino dado a elas. Cartazes foram distribuídos na favela com a foto do morro e a inscrição "Big Brother Santa Marta - a espiada que não vale um milhão". Para debater o assunto, foi marcada uma reunião para a noite desta terça-feira, 29.

 

"Quando alguém critica qualquer ponto desse processo de ordenamento urbano no Santa Marta, o governo rebate e acusa o crítico de ser a favor do tráfico. Queremos construir um posicionamento coletivo para não ficarmos vulneráveis", afirmou Juan Souza Silva, integrante do Grupo Eco, que atua há 30 anos na favela da zona sul do Rio.

 

Silva disse que uma comissão de moradores procurou a capitão Pricilla de Oliveira Azevedo, comandante da UPP, no início do mês, quando as câmeras começaram a ser instaladas, em busca de informações. O encontro acabou não ocorrendo.

 

Nesse meio tempo, nove câmeras passaram a monitorar a favela. Ao custo de R$ 500 mil, foram instaladas em áreas estratégicas, como na última estação do plano inclinado, no alto do morro. Os equipamentos têm capacidade dar giros de 360º, captando tudo a sua volta, e de aproximar as imagens até as ruas do bairro de Botafogo.

 

É aí que está o problema, dizem os moradores. Eles acreditam que podem estar sendo filmados dentro de suas casas. "A gente mora de frente para a estação do plano inclinado. Antes a gente podia até trocar de roupa com a janela aberta. Agora temos de fechar", comentou a dona de casa Neide de Moura, de 50 anos, que mora com duas filhas e um neto. "Se querem filmar a rua, eu acho ótimo. Dá mais segurança. Mas o problema é filmar dentro da casa da gente. É uma invasão de privacidade", reclamou.

 

Para o rapper Fiel, uma das lideranças comunitárias do Santa Marta, as estratégias de segurança do "asfalto" não servem para a favela. "Aqui não é condomínio, não é rua. Lá embaixo a câmera é para proteger o morador. Aqui é para tratá-lo como suspeito", afirmou o rapper, que participa da elaboração de uma cartilha sobre abordagem policial, em parceria com a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa.

 

A assessoria de Imprensa da Secretaria de Segurança explicou que as câmeras focam os acessos da favela e não filmam dentro das casas dos moradores. Informou que as dúvidas dos moradores poderão ser esclarecidas pela capitão Pricilla, que está em Copenhagen, para acompanhar a decisão da cidade sede da Olimpíada de 2016. Mas ressaltou que a instalação das câmeras é "questão inegociável", assim como a ocupação policial no morro.

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