Moradores não comentam se querem ou não saída do Exército

Em silêncio, pessoas do Morro da Providência apenas aguardam resultado Justiça para permanência de soldados

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2008 | 16h56

Em silêncio, moradores do Morro da Providência, no centro, esperam o desfecho da disputa judicial sobre a permanência do Exército na comunidade. Poucos pessoas ousam revelar que gostariam que outra força de segurança patrulhasse a favela no lugar das Forças Armadas. Uma das poucas exceções é o líder comunitário Nélson Gomes, de 43 anos. "Por mim pode entrar o Bope (Batalhão de Operações Especiais) ou o Batalhão de Choque, mas quero que o Exército saia da nossa comunidade. Não confiamos mais neles (soldados)", defende Gomes.   Veja também: Delegado diz que é evidente ligação de militares com tráfico Militares serão indiciados por morte de jovens, diz delegado Contrariando a Justiça, Exército continua na Providência   Segundo os moradores, o motivo da quebra da confiança foi a descoberta de que muitos soldados moram em outras favelas da cidade, dominadas por facções criminosas rivais ao Comando Vermelho (CV), que ainda atua na Providência, mesmo com a ocupação militar. "É uma coisa absurda porque quem deveria proteger a obra e o cidadão de repente está gritando o nome do Terceiro Comando e da ADA (Amigo dos Amigos)", lamentou o encarregado de obras Alex Oliveira dos Santos, de 32 anos, que liderou a paralisação das obras do projeto Cimento Social. Segundo ele, o fato de os integrantes da Força Nacional de Segurança virem de outros Estados afastaria este perigo.   Nas ladeiras de acesso à Providência, onde os imóveis se deterioram devido ao avanço da favelização, o temor é que os traficantes voltem a instalar o regime de terror logo que os soldados desçam o morro. "Se está ruim com eles (o Exército), pior ficará sem eles. O medo aqui continua. Ninguém oferece água para os soldados, porque um dia a ocupação acaba e nós continuamos aqui", afirmou um morador da Ladeira do Barroso, referindo-se à possíveis represálias de traficantes contra moradores, caso estes apoiassem a ocupação.   Os poucos comerciantes da favela, que muitas vezes não moram no morro, adotaram a lei do silêncio. Eles lamentam as mortes, mas não querem se intrometer no debate que divide a favela. Nesta quinta-feira, 19, a presidente da Associação de Moradores, Vera Melo, indicava que poderia aceitar a proposta do comandante da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, general Mauro César Lorena Cid, para que os militares continuem no morro. Pela manhã, os dois se reuniram e o militar prometeu a redução do efetivo, a instalação de uma Ouvidoria e a implantação dos programas sociais, que estavam previstos no projeto Cimento Social, mas nunca foram concretizados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.