Moradores reclamam das revistas feitas por policiais no Alemão

Pessoas abordadas dizem que agentes são truculentos e incompreensíveis; Exército é elogiado

José Maria Tomazela e Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2010 | 18h20

RIO - As revistas para entrar, sair e circular pelo Complexo do Alemão já incomodam os moradores do conjunto de favelas. Eles se sentem constrangidos com as constantes abordagens em que são revistados e obrigados a abrir pacotes e pertences. As mulheres reclamam da falta de discrição e do desrespeito de alguns policiais.

 

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"Tem uns que vêm com grosseria, mexem nas coisas e vêm encostando", diz a manicure S. Uma jovem mãe saiu reclamando após ser obrigada a tirar o bebê do carrinho e abrir o pacote de fraldas. A mamadeira caiu e o bico sujou. "Não tem bandido mais aqui não."

 

O motorista de uma perua Kombi disse que sua filha de 15 anos não quer mais sair de casa, pois é parada e revistada toda vez que encontra os policiais. "Pra chegar da rua até aqui, ela foi parada quatro vezes." Ele diz que a menina usa tatuagem, "mas nunca teve nada com ninguém do crime".

 

Outra garota foi obrigada a levantar a blusa e teve de colocar todo o conteúdo de uma bolsa na calçada, num beco da rua Joaquim de Queiroz. Ela tinha sido abordada por policiais civis e saiu reclamando, mas não quis falar com a reportagem.

 

Policiais civis e militares são os principais alvos das reclamações. "Não dizem nem bom dia, nem obrigado. São grossos e mal educados", reclamou um morador antigo da rua Central. Ele elogiou a abordagem dos soldados do Exército. "Falam pouco, mas são educados."

 

 

Arrombamentos.  Nesta quarta-feira, o secretário de Segurança do Estado, José Mariano Beltrame, ouviu novas reclamações sobre o metódo de ação da polícia durante a busca por traficantes, armas e drogas no Complexo. Durante uma caminhada na região, a moradora Cleonice Madalena de Freitas, de 54 anos, reclamou de truculências de um policial militar que tentou roubar dinheiro e uma câmera fotográfica da casa dela. "Eram R$ 2 mil da rescisão trabalhista do meu filho e R$ 400 do meu trabalho. Eu não deixei e ele falou que ia pegar a câmera fotográfica, que ainda pago a prestação. Não deixei e ele levou três bananas", disse Cleonice, que, apesar da queixa, também elogiou a ocupação policial das favelas.

 

Beltrame pediu desculpas e afirmou à diarista que estas atitudes não serão toleradas. Ele repetiu que os policiais flagrados em desvios de conduta no Complexo do Alemão serão expulsos na frente da tropa. "Nós recebemos diversas informações e não apenas sobre a má conduta. Tivemos informações de que moradores estão em cárcere por banidos, por exemplo. Denúncias existem de toda a ordem. No entanto, não podemos parar o trabalho aqui. Foi nossa iniciativa trazer a Ouvidoria para que as pessoas fizessem isto (denúncia)", disse o secretário após o encontro com Cleonice.

 

Com medo de ter a casa arrombada, vários moradores não foram ao trabalho na terça e preferiram ficar em casa de vigília, para esperar possíveis abordagens policiais. Houve queixas de furtos e saques. As revistas eram o assunto do dia nas mesas de bares e restaurantes da região. Segundo os moradores, os policiais estão destruindo portas, fechaduras e portões das residências que querem vasculhar, mas que não há ninguém na hora - e saqueadores acabam furtando objetos, eletrodomésticos e móveis depois.

 

As denúncias de abuso policial também atingem casas que foram abandonadas por traficantes. Um grupo de oito ONGs que atuam no Complexo do Alemão monitora as denúncias e divulgou que os problemas são "esporádicos".

 

(Com Rodrigo Burgarelli e Bruno Boghossian)

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