Moradores relatam agressões de militares

Habitantes da Providência dizem que toque de recolher foi imposto

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2008 | 00h00

"Levei soco, tapa na cara e bico na cabeça", relata o advogado Alexandre Constantino D?Elia Novello, de 43 anos, morador da Ladeira do Barroso, um dos acessos ao Morro da Providência. Ele é uma das poucas vítimas de agressão por soldados que levou o caso aos distritos policiais. Novello registrou queixa na 4ª DP e relatou o caso à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ). "Devem ter achado que tenho cara de viciado. Eles me pararam na rua e entreguei a carteira da Ordem. Os soldados desdenharam, quebraram outro cartão meu e mandaram que ficasse lá. Respondi que aquilo era cárcere privado e saí andando. Aí me derrubaram e espancaram."Dias antes, a vereadora Líliam Sá (PR) levou um jovem com um hematoma no braço para registrar queixa na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). "Ele foi agredido por um soldado. O caso era um dos muitos que ouvi de mais de 20 moradores. Eles se queixavam de que soldados urinavam na porta das casas, mexiam com as mulheres e constrangiam as pessoas com revistas." Ela chegou a procurar o comandante Militar do Leste, mas foi informada de que o oficial havia viajado.Ontem, um boneco sem cabeça com o uniforme do Exército estava pendurado na Ladeira do Livramento, no alto do morro. Segundo moradores, foi colocado na segunda-feira. PMs não escondem o riso quando passam pelo local. "Como não falamos com os militares, acho que é uma forma de mostrar o que sentimos", afirmou outro morador.A vendedora Roberta Cristina da Silva, de 23 anos, disse que a Praça Artur Brum, um dos lugares mais movimentados da favela e base do Exército, foi o epicentro dos desentendimentos entre moradores e militares - e onde ocorreu a abordagem das três vítimas no fim de semana. "Nosso problema foi com a guarnição que ficava nos fins de semana. Apelidamos eles de recalcados. Toda vez que chegávamos do baile, saltávamos lá, que é o ponto final das lotações. Vínhamos brincando e zoando. Alguns tomavam a saideira no bar. Eles não gostavam, jogavam spray de pimenta e nos mandavam para casa. Queriam a praça sempre vazia." Ela e vários moradores afirmam que os militares impuseram um toque de recolher. O Exército nega. A insatisfação atinge os mais velhos. Há 46 anos na Providência, a síndica de uma vila em um dos acessos está revoltada com os soldados. "À noite, eles invadem o quintal armados com fuzis e dormem. E se alguém tenta roubar as armas e tem tiroteio? Já pedi que não fizessem isto e eles fingem não ouvir."CARROS ROUBADOS O serviço reservado do 5º Batalhão da PM localizou ontem três carros roubados num estacionamento na Rua do Livramento, próximo do Morro da Providência. Os carros seriam usados em ações dos traficantes no centro da cidade. "Os veículos poderiam ser queimados em protesto contra a morte dos três moradores da Providência. Poderiam ser usados também para ordenar o fechamento do comércio", afirmou um policial.A polícia disse acreditar que os carros, roubados em abril e maio, estivessem sendo usados por traficantes. Eles estavam com pouco combustível.

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